O governo do Irã tem reconstruído diversas instalações nucleares e de mísseis balísticos do país danificadas por ataques de Israel e dos Estados Unidos em junho do ano passado. Imagens de satélite foram divulgadas hoje pelo jornal The New York Times.
O que aconteceu
Ritmo desigual da reconstrução de instalações iranianas oferece pistas sobre as prioridades militares do Irã atualmente. Isso ocorre enquanto o governo Donald Trump concentra forças militares próximas ao país persa e avaliava novas ações bélicas na região. Portanto, conforme analisaram ao NYT especialistas que acompanham de perto os programas nucleares e de mísseis do Irã, caso os Estados Unidos atacassem o território, as forças iranianas provavelmente retaliariam com mísseis balísticos contra Israel e alvos norte-americanos no Oriente Médio.
NYT analisou imagens de cerca de 20 locais atingidos por Israel ou pelos EUA durante o conflito de 12 dias em junho do ano passado. Pelos registros de satélite dessas instalações, o jornal encontrou obras de reconstrução em mais da metade delas. Os especialistas consultados pelo veículo, porém, ressaltam que a extensão total dos reparos ainda não está clara, visto que as imagens oferecem apenas uma visão das construções acima do solo.
Registros indicam que alguns reparos foram feitos logo após os ataques a diversas instalações de mísseis, sugerindo que o Irã priorizou a produção desses explosivos no curto prazo. “Ameaçar Israel, as bases americanas e seus aliados na região com ataques de mísseis é uma das poucas opções do Irã para dissuadir novos ataques às suas instalações nucleares”, afirmou ao NYT John Caves, pesquisador sênior do Projeto Wisconsin para o Controle de Armas Nucleares.
Já imagens das principais instalações nucleares iranianas danificadas mostram apenas reparos parciais e esforços de fortificação das estruturas, impulsionadas apenas nos últimos meses. Autoridades ocidentais e israelenses encontraram poucos indícios de que o Irã tenha feito progressos significativos na reconstrução de sua capacidade de enriquecer combustível nuclear e produzir ogivas nucleares, ainda conforme os especialistas consultados pelo jornal norte-amerciano.
Programa de mísseis balísticos do Irã fora das negociações
Representantes dos EUA e do Irã se reuniram hoje em Omã, numa tentativa de evitar outro conflito armado entre os países. O escopo das conversas ainda não foi revelado, mas, após a reunião, o chanceler iraniano Abbas Araghchi afirmou que as conversas “se concentraram exclusivamente no tema nuclear”.
Embora Washington queira abordar questões como o programa de mísseis balísticos do Irã e seu apoio a grupos armados da região, Teerã só aceita discutir seu programa nuclear. “Não trataremos de nenhum outro assunto com os americanos”, afirmou à agência oficial de notícias iraniana IRNA.
Reconstrução limitada de instalações nucleares
Casa Branca divulgou em novembro que os ataques dos EUA “degradaram significativamente o programa nuclear do Irã”. Pesquisadores disseram ao NYT que, apesar de alguns trabalhos visíveis de reconstrução, as três principais instalações de enriquecimento do Irã — Isfahan, Natanz e Fordo — parecem inoperantes atualmente.
Desde dezembro, o Irã ergueu telhados em duas usinas atingidas, o que dificulta a identificação de reconstruções sendo feitas dentro das estruturas. Especialistas disseram ao jornal norte-americano que isso pode significar que o país está tentando recuperar ativos sem ser observado de cima. Grande parte dos danos causados na superfície dos locais permanece visível.
No complexo nuclear de Natanz, considerado o principal centro de enriquecimento de urânio do Irã, os danos visíveis no início de dezembro foram posteriormente cobertos por uma estrutura de telhado branco. O prédio danificado, localizado a cerca de 225 quilômetros ao sul de Teerã, foi identificado como a planta piloto de enriquecimento de combustível pelo Instituto para Ciência e Segurança Internacional, um grupo privado em Washington que monitora a proliferação nuclear.
O Instituto para a Ciência e Segurança Internacional afirmou em relatório que detectou um aumento recente de movimentações no complexo nuclear de Isfahan. As ações incluiriam o enterramento das entradas de túneis com terra fresca. David Albright, presidente do instituto, disse ao NYT que o acúmulo de terra provavelmente se deve à “antecipação a um ataque, o que implicaria a presença de algo valioso ali”, possivelmente urânio enriquecido — usado na produção de armas nucleares.
Ainda não estão claras as atuais estratégias militares do Irã, concluem especialistas. “Mas crescem as suspeitas de que estejam reconstituindo um programa para poder construir armas nucleares”, disse Albright. Mas ponderou: “Não acreditamos que seja urgente ou iminente de forma alguma”.
Fonte: UOL.
