Estratégias de ataques e contra-ataques dos Estados Unidos, Israel e Irã têm arrastado outros países do Oriente Médio e da Europa para a campanha norte-americana desde o início do conflito, no sábado (28). A participação de outras nações pode desencadear uma terceira guerra mundial? Especialistas acreditam que o risco existe, apesar de baixo.
Qual o risco de escalada para terceira guerra
“É um risco latente diante da deterioração da segurança internacional”, avalia Ronaldo Carmona. O professor do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais) e da Escola Superior de Guerra explica que na medida em que os conflitos provocados pela operação dos Estados Unidos e Israel contra o Irã se generalizam um grau de perturbação da ordem mundial se impõem, provocando a “desordem mundial”.
Terceira guerra mundial ocorreria por meio do confronto entre potências nuclearmente armadas, ressalta Carmona. “A intensificação das tensões internacionais mexe com interesses cruzados e, portanto, provoca riscos de confronto entre as superpotências”, avalia o pesquisador.
Tensão tem impulsionado a ampliação da capacidade nuclear dos países do mundo. Segundo Carmona, tanto países da Europa, como França e Reino Unido, tem investido em seus arsenais militares, quanto países do sul global se veem incentivados a terem artefatos nucleares. “O sul global vai compreendendo que, no limite, a posse do artefato nuclear é a garantia última da soberania. Hoje as potências são incentivadas a ter o artefato nuclear como o instrumento de defesa, de dissuasão de ataques de uma potência militarmente superior, como é o caso dos Estados Unidos.”
Nove países possuem armas nucleares atualmente: Rússia, EUA, China, França, Reino Unido, Paquistão, Índia, Israel e Coreia do Norte. A informação é de levantamentos de 2025 da Ican (Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares) e da FAS (Federação de Cientistas Americanos), organização fundada em 1945 por cientistas que participaram do Projeto Manhattan, criador da primeira bomba atômica. Nenhum dos nove assinou o Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares, firmado na ONU em 2017.
Estratégia de guerra do Irã inclui a criação de uma “sensação de risco de uma 3ª Guerra Mundial”, explica Danny Zahreddine. Segundo o professor de relações internacionais da PUC-MG e membro do Grupo de Estudos de Oriente Médio e Magreb (região norte da África), faz parte dos objetivos do Irã deixar o mundo em alerta com as retaliações aos países aliados dos EUA. “Teerã tem tentado dizer ‘cuidado, se essa guerra escala, não vamos conseguir controlar'”.
Ameaça de uma ‘guerra total e descontrolada’
Irã adota estratégia baseada em “ameaças para influenciar o comportamento do oponente”, explica o professor. “Existem várias formas de ameaça, e o ideal é quando um país faz uma ameaça e o outro lado desiste de continuar no combate”, diz Zahreddine. “Mas, em alguns momentos, é necessário cumprir partes da ameaça para que o outro lado tenha certeza de que se é capaz de cumprir.”
“No caso do Irã, ameaça é de uma guerra total, descontrolada e imprevisível”, afirma o professor. Segundo ele, o Irã tenta com isso mostrar ao outro lado que não vale a pena continuar atacando uma vez que o conflito pode tomar um curso incontrolável e imprevisível. Trump, por sua vez, garantiu que as operações de combate em larga escala vão continuar —e não descarta o uso de tropas terrestres.
Estratégia iraniana envolveu “o ataque a quem atacava”, explica Carmona. O professor explica que o primeiro alvo foi Israel e, na sequência, as Forças Armadas dos EUA —representadas pelas inúmeras bases militares americanas nos países vizinhos. “Países e populações do Oriente Médio acabaram se solidarizando ao Irã pela morte de um líder religioso, o que causa comoção seja pelas populações muçulmanas seja pela agressão a um país soberano com poder constituído.”
EUA, Israel e Irã usam retórica de “vencedores”, diz professor da PUC. Os discursos de Trump e do Irã, de que não estão dispostos a interromper os ataques, escondem o real poder bélico de cada país. “Nessa hipérbole, ninguém sabe quem está falando a verdade: os EUA querem que acabe o mais rápido possível para passarem a ideia de controle e o Irã quer tornar o conflito o mais custoso possível para os EUA.”
Otan pode entrar na guerra?
Míssil iraniano interceptado na Turquia pelo sistema de defesa aérea da Otan é um dos pontos recentes de preocupação. Não ficou claro para onde o míssil se dirigia. A Otan condenou o ataque e disse que se mantém firme ao lado de todos os aliados.
Ataque a um membro da Otan pode conferir uma nova escalada de tensões. Segundo o professor, atacar um membro da Otan pode fazer com que a organização acione o artigo 5º, que traz o princípio de que um ataque a um integrante da Otan representa uma ação contra todas as nações que integram a organização.
“Isso poderia colocar Estados Unidos e Otan de um lado, e Irã, Rússia e China de outro”, diz Zahreddine. O professor da PUC-MG acredita que há poucas chances de o artigo 5º ser acionado porque, segundo ele, o presidente da Turquia, Tayyip Erdogan, não teria interesse em envolver a organização no conflito. Na segunda-feira (2), Erdogan criticou os ataques dos EUA e Israel ao Irã e se referiu à operação como uma “clara violação do direito internacional”.
Membro da Otan e vizinha do Irã, a Turquia havia se posicionado de forma favorável a um acordo entre Washington e Teerã. “Como vizinhos e irmãos, compartilhamos a dor do povo iraniano”, disse Erdogan.
Outro ponto sensível seria o ataque do Irã às bases militares do Reino Unido no Chipre. “O Reino Unido e os demais europeus não estão interessados nesse conflito, eles estão focados no conflito com a Rússia”, diz Carmona. Em tese, porém, todos os países da Otan, incluindo os EUA, podem acionar o artigo 5º.
Como China e Rússia se posicionam?
Até o momento, China e Rússia mantêm participação discreta, acredita professor da PUC. Zahreddine afirma que, por um lado, a China não tem interesse na longa duração do conflito, mas, por outro, se favorece de um desgaste norte-americano. Segundo ele, a instabilidade da economia global acentuada pelo conflito também afeta os chineses. “China e Rússia apoiam o Irã desde a guerra dos 12 dias, em junho do ano passado, mas não vão aparecer, será um apoio por trás das cortinas.”
Envolvimento da China e da Rússia representaria um risco grande de conflito direto entre potências, afirma Carmona. “Isso redundaria em uma situação muito perigosa do ponto de vista do cenário internacional, um conflito direto entre potências nuclearmente armadas seria deflagrado”, diz o pesquisador do Cebri. Segundo ele, interessaria aos chineses um cenário mais pacífico, e aos russos, a guerra contra a Ucrânia.
Chanceler da China, Wang Yi condenou os ataques dos EUA e de Israel que resultaram na morte de Ali Khamenei. Por meio de uma nota do Ministério das Relações Exteriores, Wang declarou que “matar abertamente o líder de um Estado soberano e instigar mudança de regime é inaceitável” e que “tais atos violam o direito internacional e as normas básicas das relações internacionais”.
Chanceler russo, Sergei Lavrov, também criticou a operação norte-americana e israelense. Ele disse que os ataques militares contra o Irã prejudicam gravemente a estabilidade no Oriente Médio. O presidente da Rússia, Vladimir Putin declarou que os ataques são uma “violação cínica de todas as normas da moralidade humana e do direito internacional”.
Fonte: UOL.
