Após o forte terremoto na Turquia, ocorrido em fevereiro de 2023, que contou com grande apoio prestado pela Grécia, os dois países vizinhos se aproximaram e assinaram, em dezembro daquele ano, a Declaração de Atenas sobre relações de amizade e boa vizinhança. O documento teve um efeito positivo para ambas as nações, porém, agora, o entendimento mútuo parece ter desaparecido.
As novas tensões foram desencadeadas por uma delimitação, pela Turquia, em 15 de agosto, de dois parques marinhos no Mar Egeu e no Mediterrâneo Oriental. No Egeu, a reserva abrange uma área protegida nas águas entre as ilhas gregas de Lemnos e Samotrácia. O parque ao sul fica a leste de Rodes e circunda Castelorizo.
O Ministério das Relações Exteriores da Grécia reagiu prontamente ao anúncio e classificou a criação dos parques como “ilegal”. Segundo o governo, a delimitação de reservas turcos em áreas fora das águas territoriais da Turquia, de acordo com um comunicado, não tem efeito jurídico. O primeiro-ministro grego, Kyriakos Mitsotakis, enfatizou, durante a reunião do gabinete em 24 de agosto, que deseja manter boas relações com os vizinhos. No entanto, “as áreas sob soberania grega decorrem do Direito Internacional”, disse. E que a Grécia está “sempre pronta para defendê-las”.
Grécia e Turquia vêm discutindo há décadas sobre o traçado de suas fronteiras marítimas no Mar Egeu e os direitos econômicos e reivindicações associados a recursos naturais, como o petróleo.
Preservação é desculpa para disputa no Mediterrâneo
Um ano antes, a Grécia havia anunciado a criação de dois parques marinhos nas Ilhas Jônicas e no sul das Cíclades – embora dentro das águas territoriais gregas. Na época, a Turquia havia declarado que “medidas unilaterais devem ser evitadas em mares fechados ou semifechados, como o Egeu e o Mediterrâneo”.
Agora, foi a Turquia quem declarou, por conta própria e sem acordos prévios, as próprias reservas marinhas, áreas de grande extensão no mar e destinadas a proteger ecossistemas marinhos sensíveis. No entanto, é provável que, em seus anúncios, a questão da preservação da natureza tenha sido, no máximo, um aspecto secundário para ambos os países.
Se estivessem realmente preocupados com a fauna do Mediterrâneo, Grécia e Turquia poderiam ter encontrado uma maneira de proteção ambiental em conjunto. A criação de parques marinhos, por outro lado, parece ser uma nova tática para demonstrar domínio sobre a área marítima disputada — o mais recente capítulo da disputa no Mar Egeu, que já se arrasta há décadas.
Doutrina “Mavi Vatan”
A Grécia está convencida de que a Turquia encara os parques marinhos como um meio de questionar os direitos de soberania das ilhas gregas. O país teme que a delimitação das duas reservas faça parte do dogma revisionista “Mavi Vatan”, que em turco significa “Pátria Azul”.
Com essa doutrina, a Turquia reivindica as zonas econômicas exclusivas (ZEE) da Grécia e do Chipre — a área marítima na qual um Estado costeiro detém direitos especiais, por exemplo, na pesca ou na exploração de matérias-primas. Além disso, ela também questiona a soberania sobre inúmeras ilhas e ilhotas gregas.
Até agora, esse dogma tinha um caráter mais teórico-estratégico. Agora, ele está sendo impulsionado por projetos de lei na Assembleia Nacional da Turquia. Com isso, o país pretende formalizar suas reivindicações de um maior controle sobre partes do Mar Egeu e do Mediterrâneo Oriental.
A própria Grécia está satisfeita com o status quo no Mar Egeu, mas se sente ameaçada pela Turquia, que está insatisfeita e é claramente mais bem equipada militarmente. Por isso, os gregos estão investindo fortemente em aviões de combate, fragatas, submarinos e sistemas de defesa aérea. Depois de ter reduzido significativamente os gastos com armamentos por alguns anos, a Grécia ocupou, segundo informações do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri), a 19ª posição no ranking mundial dos maiores importadores de armas pesadas no período de 2021 a 2025.
Mesmo quando Atenas forja novas alianças ou estreita as já existentes, o fator Turquia sempre desempenha um papel importante. Assim, em 2021, apesar das objeções da oposição grega, o governo grego enviou mísseis de defesa Patriot para a Arábia Saudita, a fim de proteger as refinarias sauditas contra ataques dos houthis – em um momento em que os sauditas estavam politicamente em desacordo com Ancara. Durante uma visita de Estado ao príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, o primeiro-ministro Mitsotakis abordou explicitamente o papel “desestabilizador e contraproducente” da Turquia.
Atualmente, as relações entre turcos e sauditas estão melhores. Em 7 de agosto de 2026, a Turquia assinou, juntamente com a Arábia Saudita e o Paquistão, o Pacto de Defesa de Meca, um importante acordo de defesa conjunta.
Um Domo de Ferro para a Grécia
De olho na Turquia, a Grécia também estabeleceu uma cooperação estratégica com Israel, país que tem relações tensas com os turcos. Apesar das críticas massivas entre a população grega devido à situação humanitária na Faixa de Gaza, o primeiro-ministro Mitsotakis mantém uma relação estreita com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu.
No Ministério da Defesa grego, a tecnologia militar israelense é vista como exemplo, e o país planeja um escudo de defesa sobre o Mar Egeu, inspirado no Domo de Ferro israelense. O projeto, pomposamente chamado de “Escudo de Aquiles”, deve proteger contra todas as ameaças imagináveis, inclusive contra os vizinhos, e estar totalmente operacional a partir de 2029.
Até o momento, no entanto, o primeiro-ministro grego ainda tenta adotar um tom conciliatório em relação à Turquia. No entanto, até o segundo semestre de 2027, haverá eleições para um novo Parlamento na Grécia. Quanto mais perto estiver o pleito, maior deverá ser a tentação de Mitsotakis de se apresentar como um grande patriota – e de endurecer significativamente mais uma vez a retórica em relação aos turcos.
Fonte: DW.
