A escalada do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã deixou os demais países do globo em alerta para o risco de uma guerra nuclear imenente. Ao UOL, analistas internacionais explicam como os ataque e contra-ataques expõem estratégias para uma corrida armamentista nuclear cada vez mais acelerada.
O que aconteceu
Há um temor de que ocorra uma guerra nuclear, afirma Ronaldo Carmona, afirma o pesquisador do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais). Segundo ele, que também é professor da Escola Superior de Guerra, o risco também se dá porque “o mundo vive conflitos generalizados, onde interesses de potências nuclearmente armadas estão se opondo, estão sendo contraditados.”
Ministro das Relações Exteriores da Rússia alertou hoje que o conflito levaria mais cidades, além de Teerã, a adquirir armas nucleares. Sergei Lavrov afirmou que a escalada da guerra por países do Oriente Médio aumenta o risco de que questões relacionadas à proliferação nuclear saia do controle. Após os ataques dos EUA e Israel, a capital Teerã tem considerado não fazer mais parte do TNP (Tratado de Não Proliferação Nuclear).
Estados Unidos têm menos capacidade de lidar com potências nuclearmente armadas. “São confrontamentos absolutamente imprevisíveis quando ao seu desfecho”. O professor da Escola Superior de Guerra afirma que Trump tem mostrado um padrão de enfrentamento com relação aos países que considera hostis. “É um enfrentamento pela força militar, mas com reservas para países com armamentos nucleares”.
Na França, o presidente Emmanuel Macron disse que vai expandir seu arsenal militar nos próximos anos. Ele disse que a medida é uma resposta à evolução das defesas de adversários, à capacidade de coordenação dos inimigos e ao crescimento de poderes regionais. “Tudo isso, depois de uma observação meticulosa, me levou a uma conclusão: um aprimoramento do nosso arsenal é indispensável”, disse Macron.
A ideia de ampliar o poderia nuclear da Europa já havia sido defendida por Macron no ano passado. O primeiro passo ocorreu em julho do ano passado quando a França e o Reino Unido anunciaram a unificação operacional do arsenal nuclear dos dois países — cada um mantendo seu poder decisório autônomo.
Esse cenário acaba deixando uma “lição” aos países do sul, explica o pesquisador do Cebri. “O sul global vai compreendendo de que, no limite, a posse do artefato nuclear é a garantia última da soberania, da independência. Hoje as potências, até as médias, são incentivadas a ter o artefato nuclear como o instrumento último de defesa, de dissuasão, de ataques de uma potência militarmente superior, como é o caso dos Estados Unidos.”
Países de grande relevância internacional como China e Rússia adotam postura moderada, pontua Carmona. Para a China, segundo ele, não interessa aderir a uma guerra. “Do ponto de vista de seu desenvolvimento, interessa à China uma maior estabilidade internacional”, afirma Carmona. “E a Rússia tem um enfrentamento direto com a Europa em razão do conflito com a Ucrânia”. Mas, Carmona alerta que quando há uma contradição direta e explícita entre referências nuclearmente armadas podem ocorrer “erros de cálculo”.
Entidades internacionais fragilizadas
Nações Unidas estão inoperantes, avalia Pio Penna Filho, professor do Instituto de Relações Internacionais da UnB (Universidade de Brasília). “Todos os países observam o conflito em compasso de espera. Os ataques colocam as potências em alerta e em estado de temor”, acredita. Segundo ele, os ataques dos Estados Unidos, de Israel e do Irã tem forçado nações a fazerem novos alinhamentos e alianças defensivas — como busca a Europa.
Multilateralismo está em baixa e em declínio, afirma Carmona. Segundo ele, arranjos multilaterais no sistema internacional funcionam de forma efetiva quando há maior estabilidade internacional. “Na Guerra Fria, por exemplo, havia dois polos dominantes, o que conferia uma maior estabilidade, ou seja, para dirimir diferenças”, diz.
Momento atual força potências a pensarem em interesses nacionais, ressalta o professor da Escola Superior de Guerra. “Elas pensam rigorosamente em termos de interesse nacional. Nações soberanas pensam em termos de interessa nacional, mas nesses momentos de transição isso se torna mais mais explícito”, explica. “Em um mundo regido pelo conflito de interesses nacionais, cada um busca se posicionar melhor, de acordo com as suas condições de poder militar, econômico e político.”
Cenário tende a aprofundar desordem mundial pela próxima década, prevê Carmona. Segundo ele, não deve ocorrer a reversão nos próximos anos do declínio do papel da ONU, do multilateralismo e do Conselho de Segurança. “Essas organizações multilaterais só tendem a vigorar num contexto em que se equaciona essa disputa que existe pela hegemonia mundial. Nesse contexto de disputa pelo futuro da ordem global, não dá para dizer que haverá um revigoramento do multilateralismo”.
Conflito pode aumentar capacidade nuclear do Irã
Como resposta aos ataques norte-americanos, o Irã pode ser armar ainda mais, acredita Penna Filho. “É preciso considerar que o Irã não é um ator qualquer, é um país persa, de maioria xiita e muçulmana”, afirma. “Se não houver uma mudança de regime, os sucessores de Ali Khamenei vão tomar consciência de que devem ampliar ainda mais a capacidade de defesa e nuclear”.
Estados Unidos poderão atrasar o programa nuclear do Irã, mas não extingui-lo, pondera Penna Filho. “Em termos regionais, se o regime iraniano sobreviver o cenário será diferente, estarão mais avançados ainda”, analisa o professor. A suspeita de que Teerã possa estar próxima de desenvolver uma arma atômica tem sido usada como justificativa estratégica para ações militares, mas relatórios recentes de organismos internacionais e da inteligência ocidental indicam que o país não possui uma bomba nuclear.
Irã tem o domínio tecnológico nuclear. O país desenvolveu ao longo dos anos uma infraestrutura nuclear avançada que o coloca próximo do limiar tecnológico necessário para produzi-la. Segundo a Arms Control Association, o país “não é um Estado com armas nucleares”. No entanto, investiu em novas capacidades nucleares após o colapso do acordo internacional firmado em 2015.
Fonte: UOL.
