Desde que o El País iniciou sua investigação em 2018 com apenas 34 casos registrados, a Espanha já ultrapassou a marca de 3.000 vítimas de pedofilia perpetradas pela Igreja Católica. Este sexto relatório eleva o número exato para 3.081 vítimas e 1.613 acusados (incluindo clérigos e leigos). Esse número de perpetradores representa 1,46% dos 110.000 religiosos e padres que atuaram no país desde 1940. A magnitude do problema é ainda corroborada pela pesquisa macro de 2023 do Provedor de Justiça, que estima que 1,13% da população adulta espanhola, cerca de 440.000 pessoas, sofreram abuso sexual no âmbito religioso.
O jornal El País, que mantém o único banco de dados público sobre abusos na Igreja espanhola devido à falta de transparência e ineficácia dos relatórios oficiais da instituição, relata que, apesar deste dossiê, assim como outros anteriores, ter sido enviado ao Vaticano, à Conferência Episcopal Espanhola (CEE) e à Ouvidoria para investigação das acusações, a Igreja Católica permaneceu em silêncio. Durante o papado de Francisco, o Vaticano delegou a questão à Conferência Episcopal Espanhola, entidade caracterizada pela sua opacidade e negação do problema. Agora, o Papa Leão XIV, durante sua visita à Espanha em 6 de junho, terá que abordar essa questão pendente após receber o relatório.
Novos casos vêm à tona
Este sexto relatório inclui 48 depoimentos de homens e 10 de mulheres. Entre eles está o de Manuel Montoro, que alega ter sido agredido na paróquia de Begíjar, em Jaén, entre 1992 e 1993, pelo padre PGR. Em uma ocasião, o padre o despiu à força na casa paroquial e o abraçou com as calças abaixadas, parando repentinamente quando ele ficou nervoso. Após o incidente, ele confidenciou a um padre próximo, buscando proteção, mas não a recebeu. Ao completar 18 anos, foi separado de sua família e enviado para um mosteiro na França. A vítima denunciou os acontecimentos à Ouvidoria em 2024 e à Diocese de Jaén em 2025. No entanto, o acusado nega a agressão e, embora a diocese afirme estar investigando o caso, Montoro não recebe nenhuma informação há meses.
Em outra ocasião, o depoimento de Gonzalo de Ena, um ex-professor de 82 anos que lecionou na escola La Purísima para crianças surdas em Madri entre 1978 e 1979, trouxe à tona os abusos cometidos contra menores extremamente vulneráveis pelo todo-poderoso capelão da instituição, AYV (falecido em 2021). Pelo menos cinco ou seis alunos confessaram a ele que o padre os levava a uma casa sob o pretexto de “exercícios espirituais”. Usando a língua de sinais, as crianças expressaram a ele que o padre era “mau” e fazia “coisas ruins” com elas, deixando claro que estavam cometendo abuso sexual. O ex-professor lamenta não ter denunciado na época, pois “os tempos eram outros”, e afirma que, com sua perspectiva atual, teria denunciado imediatamente.
Outro caso é o do frade carmelita José Luis Zurita Abril, que serviu em Cádiz e Córdoba e faleceu em 2021. Uma das vítimas relata que, aos 12 anos, o padre o levou, junto com um amigo, à cripta dos frades. Lá, o padre se despiu, abusou do amigo, a quem já havia chamado em diversas ocasiões, e tentou obrigá-lo a masturbá-lo. Posteriormente, foi estuprado em várias ocasiões. Outra vítima de Zurita conta que ele o considerava seu “aluno predileto” e que, inesperadamente, entrava em sua cama para estuprá-lo e obrigá-lo a masturbá-los. “Isso virou minha vida de cabeça para baixo. Acontecia semanalmente, um dia por semana, sem que eu soubesse quando, sempre de repente. Eu vivia com essa angústia”, confessou.
Novas acusações contra reincidentes
Este relatório detalha novas alegações contra reincidentes, incluindo dois membros dos Irmãos Maristas, Marino González e Cesáreo Gabaráin, entre os casos mais graves destacados pela investigação. Novos depoimentos confirmam que, até 2011, González continuou a enganar menores, atraindo-os para sua casa em Burgos sob o pretexto de prepará-los para a universidade, acumulando assim 17 vítimas. Gabaráin, compositor de famosas canções litúrgicas, também tem um total de 17 vítimas.
Victoriano Labiano, em Logroño, e JAR, em Teruel, também receberam novas denúncias. Da mesma forma, o relatório revela o caso de padres que atuaram com impunidade em diversos países, como JGZ, da Cantábria, acusado na Espanha e em Cuba na década de 1990, mas que permaneceu ativo até 2025 devido à suposta negligência de sua diocese. Além disso, a publicação inclui novas acusações de pedofilia em dois centros jesuítas com histórico relatado pelo El País: Santiago Apóstol, em Vigo, e Sarrià, em Barcelona, com 12 e 7 figuras religiosas citadas, respectivamente.
