Ane Almeida tinha 16 anos quando sofreu o primeiro abuso sexual. Já Stephanie Lourenço era uma criança de 8 anos quando foi acordada por um homem que passava a mão pelo seu corpo. Além da violência sofrida, o que as duas têm em comum é o fato de que ambas foram vítimas de homens que ocupavam posições de liderança dentro da igreja.
Elas compartilharam seus relatos no Instagram e fizeram um desabafo sobre a forma como foram silenciadas dentro da comunidade religiosa da qual faziam parte. Histórias como a de Ane e Stephanie ajudam a explicar por que o discurso da pastora Helena Raquel, líder da Assembleia de Deus Vida na Palavra (ADVIP), no Rio de Janeiro, repercutiu tanto nas redes sociais recentemente.
Durante uma pregação no 41º Congresso dos Gideões, ela falou sobre homens abusadores e violentos protegidos pela igreja. “Pare de orar por ele hoje e comece a orar por você”, disse em um dos trechos mais compartilhados do sermão.
Em entrevista à Marie Claire, Helena afirmou que o silêncio dentro das comunidades religiosas muitas vezes nasce da tentativa de preservar a própria instituição. “As pessoas se sentem na obrigação de proteger a comunidade e, por isso, não falam. Quando, na verdade, a comunidade não pode ser acusada pelo erro de uma pessoa”, afirmou. Para ela, enfrentar esses casos publicamente não enfraquece a fé, mas demonstra responsabilidade coletiva diante da violência.
“Não é fácil romper com anos de opressão, mas há vida após a denúncia”
No caso de Ane, ela foi estuprada pelo pastor da igreja que frequentava, no litoral do Paraná. Na época, seus pais enfrentavam um momento conturbado no casamento e foi na família do líder religioso que ela encontrou acolhimento e refúgio para os problemas de casa. O que ela não imaginava era que sua fragilidade se tornaria instrumento de violência e manipulação.
“Era alguém que eu depositava minha confiança e meu carinho. Num determinado dia, ele disse que passaria na minha casa de manhã e que a gente faria um passeio. Eu achei que seria um passeio em família. Ele me levou para um local afastado e foi quando aconteceu o primeiro abuso”, conta Ane, em entrevista à Marie Claire.
Ela demorou quatro meses para compreender que havia sido vítima de violência sexual. O abuso aconteceu mais uma vez e, quando decidiu contar à esposa do pastor, teve sua palavra questionada. Ane foi apontada como amante pela comunidade religiosa, o que a levou a se afastar da igreja.
“Não foi um estupro com a arma na minha cabeça, foi uma violência com minha alma. Eu não consegui falar, nem sair daquela situação”, afirma.
Depois dos abusos, o pastor passou a dizer que estava apaixonado por ela, mas que não poderia viver aquele “amor”. O discurso servia para mantê-la em silêncio e continuar criando situações em que ficariam sozinhos.
Hoje, aos 42 anos, Ane atua como psicóloga e afirma que ter sido rejeitada pela igreja foi o que mais a traumatizou. De alguns membros, ouviu que “colheria o que plantou”, por supostamente ter seduzido o pastor e o levado ao adultério.
“O foco era a restauração do pastor. Eu saí da igreja, não tive apoio de ninguém, todas as pessoas ficaram do lado do pastor, ele continuou tocando a vida dele normal”, afirma.
Ela se mudou de cidade e, na tentativa de reconstruir sua relação com a fé, começou a frequentar outra igreja. Na nova comunidade, buscou apoio para lidar com as violências que havia sofrido e decidiu compartilhar sua história. Mais uma vez, foi tratada como amante e chegou a ser assediada pelo novo pastor.
“Na primeira igreja eu fui abusada. Na segunda, iria acontecer novamente. Eu tive muita dificuldade de voltar a frequentar uma igreja, precisei me curar e entender quem Deus era. Entender que não dependo das pessoas para me relacionar com Deus”, afirma.
Uma das formas que encontrou para elaborar o trauma foi escrever um livro sobre a violência sofrida, intitulado Além da face do abismo. Hoje, Ane fala abertamente sobre o assunto, não teme mais os julgamentos e reconhece a importância de líderes como a pastora Helena Raquel.
Stephanie, por outro lado, diz que ter sido vítima de pedofilia marcou profundamente sua forma de se relacionar com a religião.
“Passei minha adolescência toda com raiva de Deus”, afirma em entrevista à Marie Claire.
Isso porque, desde os 8 anos, foi perseguida por um homem que fazia parte da igreja frequentada por seus familiares e que ela também costumava frequentar, em Taboão da Serra (SP). Sempre que o encontrava na casa dos parentes, ela se tornava vítima de atos libidinosos, muitas vezes disfarçados de brincadeiras de cócegas. Em outras ocasiões, era despertada por ele enquanto dormia.
“Ele servia em uma Assembleia de Deus muito grande aqui no Taboão da Serra. E, na minha cabeça de criança, eu pensava: ‘um homem de Deus nunca seria capaz de fazer isso comigo, né?’ Eu me sentia desconfortável, mas eu não tinha o discernimento de saber que aquilo era errado”, lembra.
Em um dos episódios, o abusador chegou a se masturbar enquanto ela brincava. Em outro momento, despiu-se e pediu que ela tocasse seu pênis. Ela só entendeu que havia passado anos na mira de um pedófilo quando assistiu a uma situação semelhante em uma novela.
“Eu ficava com vergonha e eu saía correndo, como se eu tivesse indo no banheiro e visse uma pessoa fazendo xixi com o órgão genital para fora. Era essa visão de criança que eu tinha, porque na igreja eu não era ensinada sobre educação sexual. Hoje já se fala mais nisso em algumas”, afirma.
Mesmo tomando consciência da própria história, ela só conseguiu contar para seus pais quando percebeu que seu irmão caçula também havia entrado na mira do abusador. Por medo, Stephanie não tornou o caso público para a igreja.
“Era uma pessoa muito próxima da minha família e muito respeitada dentro da igreja. Na minha cabeça, ninguém ia acreditar em mim. Eu tinha medo de ser culpada, medo das pessoas acharem que eu estava mentindo, medo de destruir a relação da família”, diz.
Hoje, ela se questiona por que não há ações de conscientização sobre violência doméstica e abuso sexual dentro das igrejas, principalmente quando as mulheres são a principal parcela do grupo, segundo dados do Censo Demográfico 2022.
“Como que um país que se diz majoritariamente cristão, mesmo sabendo desses dados, ainda não criou algum tipo de comitê de proteção a essas pessoas dentro das igrejas? É inacreditável para mim pensar que as pessoas sabem sobre isso e elas escolhem não fazer nada”, afirma.
Para ela, que decidiu falar abertamente sobre isso nas redes sociais, líderes como a pastora Helena Raquel são cada vez mais necessários para quebrar o ciclo de abusos e violências cometidos dentro da igreja.
“O que eu escutava dentro da igreja era que eu precisava ser submissa acima de tudo. E se eu sou cristã, eu não posso nunca tocar nos ungidos do Senhor. Mas eu nunca tinha escutado uma pastora falar que pedófilo, agressor, pessoas ruins não são ungidos. Eu acreditava na minha cabeça de criança que por pior que a pessoa seja, por ela ser ungida, ela é perdoada”, desabafa.
Fonte: Marie Claire.
