Em meio a negociações de paz paralisadas e crescentes tensões sobre o fechamento contínuo do estratégico Estreito de Ormuz, os temores de que a guerra possa recomeçar alimentam uma sensação de inquietação no país.
Na viagem da CNN pelo país, iranianos comuns, a quem Trump certa vez instruiu a “retomar seu país”, descreveram a vida sob bombardeios e bloqueios.
“Não vá para lá, é muito perigoso agora”, aconselhou uma jovem iraniana que viajava dos Estados Unidos para Teerã, ao saber de nossa jornada conjunta pelo noroeste do Irã.
“Tenho família lá, por isso estou correndo o risco”, explicou ela, pedindo para não ser identificada.
À beira da estrada, entre quiosques que vendem pistache e chá, cartazes pretos lamentam a morte do aiatolá Ali Khamenei, o líder supremo iraniano morto em um ataque aéreo em fevereiro, no primeiro dia da guerra.
“Sua sombra passou sobre nossas cabeças”, diz uma faixa em farsi, citando um lamento popular persa.
Seu filho e sucessor, Mojtaba Khamenei, é agora o “porta-estandarte” da nação, declara outro cartaz, embora o jovem Khamenei, que teria ficado ferido no mesmo ataque, não tenha sido visto ou ouvido em público desde que assumiu o poder – mais um sinal da incerteza que paira sobre o Irã.
“Trump pode decidir retomar os bombardeios hoje mesmo”, disse um iraniano.
“Talvez não quando ele estiver na China, mas quem sabe. Trump gosta de ser o centro das atenções”, acrescentou.
Enquanto o presidente dos EUA, Donald Trump, faz uma visita de Estado à China, tanto os Estados Unidos quanto o Irã parecem estar buscando em Pequim uma possível saída para o impasse.
Espera-se que Trump peça à China que pressione o Irã a buscar um acordo. O embaixador iraniano na China também sugeriu que o Estado comunista poderia desempenhar um papel importante de mediador entre Washington e Teerã.
Os EUA e a China compartilham o interesse em desbloquear o fluxo de petróleo e gás pelo Golfo Pérsico. Além disso, pode ser uma jogada diplomática para a China parecer estar ajudando a resolver os problemas criados para a economia global nos últimos meses, permitindo que Pequim contraste seu comportamento com a atuação disruptiva de Washington.
Mas são os iranianos — uma força política vibrante, mesmo com o regime linha-dura do país — que provavelmente decidirão o futuro de sua nação e, durante uma longa viagem até a capital, pude observar vislumbres das diversas forças em jogo.
Vimos multidões de turistas de um dia – jovens e idosos – carregando galões de óleo de cozinha manualmente através da fronteira com a Turquia. Um aposentado iraniano, ofegante, explicou como o produto essencial agora é seis vezes mais caro no Irã do que na Turquia, em meio a uma crescente crise do custo de vida que não dá sinais de recuo.
Embora provavelmente exacerbada pelo recente bloqueio naval dos EUA ao Irã, a questão do custo de vida alimentou os protestos antigovernamentais em todo o país, que começaram no final do ano passado – levando a uma repressão implacável. Milhares de pessoas foram mortas na resposta do Estado às manifestações, admitiram as autoridades iranianas.
Em um restaurante a caminho de Teerã, em um antigo caravançará, ou hospedaria tradicional para viajantes, nos serviram arroz e kebabs temperados e bebemos um café forte e escuro em uma sala de jantar repleta de famílias.
Surpreendentemente, a maioria das mulheres iranianas presentes não usava o hijab, ou véu islâmico – um legado de desafio dos protestos de 2022, “Mulher, Vida, Liberdade”, que forçaram as autoridades iranianas a flexibilizar a aplicação de rígidos códigos de vestimenta.
Os iranianos têm demonstrado repetidamente a vontade de se opor, muitas vezes a um alto custo, diante de uma força esmagadora. Mas hoje, a guerra dos EUA com o Irã, que Trump, em seus primeiros dias, chamou de sua “pequena excursão”, está claramente cobrando seu preço do povo iraniano, que luta para sobreviver dia após dia e se prepara para possíveis novos ataques.
“Não acho que protestar, apesar das dificuldades, esteja sequer na agenda da maioria dos iranianos agora”, confidenciou um pai iraniano chamado Maddy enquanto ajudava sua filha pequena a lavar as mãos no restaurante.
“A guerra de Trump silenciou as pessoas e fortaleceu o governo iraniano. Pelo menos por enquanto”, acrescentou o homem.
Fonte: CNN.
