A assinatura do Acordo de Defesa Conjunta de Meca entre Paquistão, Arábia Saudita e Turquia reacendeu as preocupações da Índia sobre os impactos da nova aliança no equilíbrio de poder no sul da Ásia.
O tratado estabelece que um ataque armado contra qualquer um dos três países será considerado um ataque contra todos, ampliando as incertezas estratégicas em uma região marcada por rivalidades históricas e pela presença de potências nucleares.
Assinado na última sexta-feira, 7, o pacto foi apresentado pelos governos envolvidos como uma iniciativa de caráter exclusivamente defensivo, sem direcionamento contra qualquer país.
Ainda assim, analistas ouvidos pelo jornal South China Morning Post (SCMP) avaliam que o principal efeito do acordo pode não estar em sua aplicação militar, mas no fortalecimento da posição diplomática e estratégica do Paquistão na região.
O triângulo de poder entre China, Índia e Paquistão sempre foi considerado um dos mais perigosos do mundo, e o novo pacto acrescenta uma nova variável. A Índia já enfrenta simultaneamente disputas fronteiriças com o Paquistão no oeste e com a China no norte — ambas potências nucleares —, além do histórico de guerras e confrontos militares com ambos.
Especialistas notam ao SCMP que o acordo conecta capital saudita, tecnologia de defesa turca e a posição geográfica estratégica do Paquistão. Mesmo que as cláusulas de defesa coletiva jamais sejam acionadas, sua existência pode complicar o planejamento de crises e os cálculos de dissuasão da Índia.
A aproximação também ocorre após o conflito indo-paquistanês do ano passado, que teve início com um ataque a turistas na Caxemira administrada pela Índia. A percepção de que o Paquistão saiu politicamente fortalecido do episódio teria contribuído para elevar sua relevância no mundo islâmico e facilitar a ampliação de seus acordos de segurança.
Para observadores internacionais, um Paquistão mais integrado à arquitetura regional de segurança também atende aos interesses chineses, ao manter a atenção militar indiana dividida entre duas frentes. Além disso, Islamabad pode obter acesso a equipamentos mais diversificados por meio da cooperação com a Turquia, membro da Otan.
Apesar das preocupações indianas, vários analistas consideram o pacto mais simbólico do que operacional.
Arábia Saudita e Turquia possuem prioridades estratégicas distintas e dificilmente se envolveriam diretamente em uma eventual guerra entre a Índia e o Paquistão, o que limita o alcance prático da aliança.
Nova Délhi, por sua vez, busca preservar sua influência em Riad por meio de acordos energéticos, investimentos e cooperação econômica, além de ampliar parcerias de defesa com países como Israel, os Emirados Árabes Unidos e a Indonésia. O desafio é equilibrar essas relações sem permitir que o novo alinhamento reduza sua margem de manobra no Golfo.
O ministro da Defesa paquistanês, Khawaja Muhammad Asif, sugeriu que o acordo poderia servir de modelo para uma cooperação militar mais ampla entre países islâmicos, chegando a compará-lo à Otan. Os especialistas, porém, consideram prematuro falar em criar uma “Otan islâmica”.
Para a Índia, a preocupação central é que o pacto evolua gradualmente por meio de exercícios militares conjuntos, compartilhamento de inteligência, transferências de armamentos e acordos de defesa paralelos.
Uma outra variável
Ademais, o desenvolvimento ocorre enquanto Bangladesh negocia a possível compra de caças JF-17 Thunder, desenvolvidos conjuntamente pela China e pelo Paquistão, como parte de seu programa de modernização militar. Conversas de alto nível entre as forças aéreas dos dois países e discussões sobre um eventual acordo de defesa aumentaram a atenção de Nova Délhi.
Analistas indianos afirmam que Bangladesh merece acompanhamento próximo, especialmente após o crescimento recente de seus laços militares com o Paquistão e a Turquia. Ainda assim, avaliam que uma adesão formal de Daca ao pacto de Meca representaria um salto político significativo e, por ora, improvável.
As relações entre a Índia e o Bangladesh atravessaram um período de tensão após a deposição da exprimeira-ministra Sheikh Hasina, que mantinha uma forte cooperação com Nova Délhi.
Nos últimos meses, os dois países têm buscado estabilizar os vínculos, embora persistam preocupações indianas quanto a grupos militantes islâmicos que atuam em território bangladeshi.
A questão de Bangladesh, portanto, suscita novos medos de um bloco militar mais amplo, que tenha caráter ideológico ou identitário, já que Bangladesh também é um país de maioria islâmica.
No fim, a principal questão não é se o Acordo de Meca altera imediatamente o equilíbrio militar do sul da Ásia, mas se altera os cálculos de segurança dos atores envolvidos. Ao aproximar o Golfo, o Mediterrâneo oriental e o sul da Ásia em um mesmo quadro de segurança, o pacto introduz uma nova camada de incerteza em uma das regiões mais sensíveis do sistema internacional, apura o SCMP.
Fonte: Exame.
