A fome de 2027 está sendo plantada agora, em campos semeados com menos adubo do que o necessário.
O alerta é do presidente do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), Álvaro Lario, que disse à Reuters em 15 de outubro que os efeitos do fechamento de Ormuz já começam a aparecer nas colheitas.
O choque que os estoques seguraram e a incerteza que não segura
Segundo Lario, os estoques de fertilizantes e combustível amorteceram o primeiro impacto. A incerteza prolongada, porém, levou a um plantio mais cauteloso e a menos adubo aplicado. O combustível mais caro também encarece a colheita mecanizada.
O quadro se agrava porque o choque não vem sozinho. Lario citou o El Niño e as interrupções no trigo do Mar Negro, tema que tratamos aqui na segunda-feira, como fatores que empilham custo em toda a cadeia de alimentos.
Um terço do adubo do mundo passa por um estreito travado
A FAO calcula que até 30% do comércio internacional de fertilizantes passa por Ormuz. No caso da ureia, o Oriente Médio responde por cerca de 34% do comércio mundial, segundo a consultoria Argus.
O preço da ureia, que chegou a US$ 782 por tonelada durante as hostilidades, caiu para cerca de US$ 350 em junho, depois que o estreito reabriu. Mas o Irã voltou a restringir a passagem em meados de julho, e a StoneX registrou alta de 14% da ureia nos portos brasileiros em quatro semanas até o fim do mês.
São, na prática, dois choques. O primeiro foi absorvido pelos estoques. O segundo chega na hora de comprar adubo para as safras de 2027. A projeção de abril do Banco Mundial previa alívio dos preços em 2027, quando as exportações do Oriente Médio se recuperassem, o que depende de o estreito abrir de fato.
O fosfato tem um problema próprio: a rota também escoa enxofre e amônia, matérias-primas dele.
O plano da ONU que ainda não saiu do papel
A ONU propõe um esquema para passar fertilizantes por Ormuz: cinco navios por dia, com monitores da ONU nos portos do Golfo verificando as cargas. A iniciativa depende de um acordo entre Estados Unidos e Irã, que não veio.
Na quarta-feira passada, um responsável pelo plano disse à Reuters que, sem entendimento em poucas semanas, pode haver uma crise de segurança alimentar em partes da Ásia e da África.
O contexto político não ajuda. O Irã considera “insuficiente” a resposta americana sobre Ormuz, e Trump disse em 15 de outubro que a guerra termina “assim que eu quiser”. O plano que alimenta países pobres está preso à negociação entre dois governos em guerra.
O El Niño: o segundo golpe na mesma lavoura
O Programa Mundial de Alimentos estima que o El Niño de 2026 e 2027 pode levar pelo menos mais 49 milhões de pessoas à insegurança alimentar aguda até o fim de 2027, num total de 274 milhões em 45 países. O relatório dá 81% de chance de um evento muito forte. A FAO aponta como áreas de maior risco o sul da Ásia, o Sahel, o sul da África, o Sudeste Asiático e o Corredor Seco da América Central.
O mercado já mostra o aperto. O índice de preços de alimentos da FAO subiu em setembro para 136,0 pontos, o terceiro aumento seguido, puxado por interrupções logísticas e preocupações com o clima. O JPMorgan projeta que a inflação mundial de alimentos acelere de 2,8% no primeiro semestre de 2026 para 5% no primeiro de 2027.
Quem paga primeiro: os países que importam o que comem e o que plantam
Os mais expostos são os que compram adubo, combustível e comida de fora. A Tailândia, por exemplo, importa cerca de 31% dos fertilizantes do Golfo e do Irã, segundo o banco OCBC.
Em abril, o chefe do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Alexander De Croo, já dizia que a guerra empurraria mais de 30 milhões de pessoas de volta à pobreza, mesmo que acabasse no dia seguinte.
E o Brasil nessa conta
O Brasil planta agora a soja de 2026/27 e será cobrado em 2027. Com preços em alta, o país tende a ganhar como fornecedor de importadores desesperados por comida, mas só se a lavoura estiver bem adubada.
O El Niño, que ameaça a Ásia, também traz chuva forte ao Sul do Brasil, como mostramos em setembro ao tratar de Santa Catarina. A lavoura brasileira vira ativo estratégico do mundo, e o país precisa decidir se o trata como tal.
A conta que vence na colheita
Cada semana sem acordo para passar adubo por Ormuz é uma semana de plantio com menos insumo. A fome raramente começa na falta de comida. Começa na decisão de plantar menos, e essa decisão está sendo tomada agora, em campos que o noticiário não filma.
Fonte: ONU.
