O diretor regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a África, Mohamed Janabi, afirmou nesta quinta-feira (22) que o continente enfrenta uma situação “mais complexa” após a identificação de um caso importado em território nigeriano.
As autoridades do Nigéria anunciaram o caso na terça-feira (20). Segundo as autoridades sanitárias, 44 pessoas que tiveram contato com a paciente já foram identificadas e estão sendo monitoradas. Na quarta-feira (21), exames confirmaram que a infecção foi causada pela variante Bundibugyo do vírus, a mesma responsável pela epidemia que atinge atualmente a RDC.
O caso chamou a atenção das autoridades de saúde porque a paciente só recebeu o diagnóstico em 19 de outubro, mais de duas semanas após chegar à Nigéria. Antes disso, ela passou por duas clínicas privadas e foi internada em 11 de outubro.
Segundo o Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças (Africa CDC), a demora no diagnóstico aumenta o risco de transmissão e explica a preocupação com um possível número elevado de casos associados à paciente.
Em entrevista à RFI nesta quinta-feira (22), o diretor-geral do Africa CDC, Jean Kaseya, afirmou que a paciente havia passado duas semanas em Kampala, capital de Uganda, ao lado do marido antes de viajar para Abuja.
Segundo ele, a diplomata nunca esteve na República Democrática do Congo (RDC), atual epicentro da epidemia. Ela viajou de Kampala para Adis Abeba e, de lá, seguiu para Abuja. A informação levanta dúvidas sobre a situação epidemiológica em Uganda. Oficialmente, o país declarou no fim de agosto o encerramento do surto após registrar 20 casos e duas mortes.
Questionado sobre a possibilidade de o vírus continuar circulando no país apesar da declaração oficial, Kaseya afirmou que o assunto será discutido diretamente com as autoridades ugandesas. “Precisamos saber exatamente por onde essa senhora passou e quem teve contato com ela”, afirmou.
O dirigente também defendeu o reforço da vigilância sanitária em fronteiras, hospitais públicos e clínicas privadas. Segundo ele, o caso demonstra que “nenhum país está protegido” sem sistemas robustos de monitoramento epidemiológico.
Epidemia avança em vários países africanos
A chegada do vírus ao Nigéria transforma o país mais populoso da África na quarta nação do continente a registrar casos da variante Bundibugyo neste ano. O surto teve início na RDC, que enfrenta desde maio a 17ª epidemia de ebola de sua história. Em poucos meses, ela se tornou a mais letal já registrada no país.
Segundo dados apresentados pelo Africa CDC, a epidemia acumula atualmente cerca de 9.600 casos em toda a região afetada e aproximadamente 4.600 mortes. A RDC concentra a maior parte dessas infecções. O país já soma mais de 4.300 mortes, em uma crise sanitária sem precedentes em sua história recente.
Além da RDC, Uganda registrou casos antes de declarar o surto encerrado. Mais recentemente, o Quênia confirmou seu nono caso e contabilizou ao menos uma morte associada à doença.
A expansão geográfica da epidemia preocupa especialistas. Kaseya observou que oito províncias congolesas já registram infecções e que o número diário de novos casos permanece entre 65 e 70, indicador considerado incompatível com uma epidemia sob controle.
Comunidade internacional é pressionada
Diante da expansão da doença, o Africa CDC convocou para 28 de outubro uma reunião com ministros da Saúde de diversos países africanos. O objetivo será coordenar medidas de vigilância em áreas de fronteira e harmonizar protocolos de resposta diante do aumento da circulação regional de pessoas.
Na terça-feira (20), o diretor do centro africano já havia alertado para uma “ameaça extremamente grave” e pedido maior mobilização internacional para conter a epidemia. Apesar das preocupações, ele descartou por enquanto qualquer risco à realização da próxima Copa Africana de Nações, prevista para junho do ano que vem no Quênia, em Uganda e na Tanzânia.
Segundo o dirigente, as autoridades quenianas conseguiram identificar todos os casos registrados até agora a partir de listas de contatos monitorados, o que indica que as cadeias de transmissão permanecem rastreadas. Uganda, acrescentou, mantém atualmente cerca de 140 pessoas sob vigilância epidemiológica.
Debate sobre recursos para o combate ao ebola
Kaseya também voltou a comentar uma controvérsia recente envolvendo o financiamento internacional destinado ao combate à epidemia. Na semana passada, durante visita a Kinshasa, ele afirmou que havia falta de transparência sobre parte dos (cerca de R$ 4,8 bilhões) mobilizados pela comunidade internacional para enfrentar a crise.
A declaração gerou interpretações de que o Africa CDC estaria sugerindo desvio de recursos, hipótese rejeitada pelo dirigente. “Nunca disse que o dinheiro foi desviado ou mal utilizado”, afirmou. Segundo Kaseya, a preocupação é garantir que os governos africanos tenham conhecimento integral dos recursos aplicados em seus territórios.
Ele defendeu uma relação baseada em transparência entre autoridades nacionais, organismos internacionais e doadores externos, argumentando que o fortalecimento da soberania sanitária africana depende também do acesso às informações sobre o financiamento das operações de emergência.
A confirmação do caso no Nigéria reforça a avaliação das principais autoridades sanitárias do continente de que a crise ainda está longe de ser controlada e que a contenção do vírus dependerá cada vez mais da coordenação entre países diante da crescente circulação transfronteiriça de pessoas.
Fonte: AFP.
