Um super El Niño de intensidade recorde com potencial de afetar todos os continentes nos próximos meses, com secas e inundações que ameaçam colheitas e elevam o risco de crise alimentar global. A avaliação é de especialistas ouvidos pela New Scientis, que apontam pressão sobre preços em países de alta renda e risco de insegurança alimentar em nações mais pobres.
Impactos no Hemisfério Norte
No Reino Unido, o verão quente e seco deste ano já comprometeu parte da produção agrícola. Na fazenda orgânica Laines Organic Farm, no condado de West Sussex, os produtores Tom Chadwick e Rosa Farber relatam perdas e danos às plantações de cenoura, alho e favas. Segundo Farber, a imprevisibilidade do clima é a principal preocupação.
De acordo com o especialista Christian Jaccarini, do Energy and Climate Intelligence Unit, o Reino Unido pode recorrer a importações mais caras para garantir o abastecim0os seis meses mais chuvosos já registrados na Inglaterra e no País de Gales. A colheita de grãos como trigo de inverno e cevada caiu mais de 20% no período, com prejuízo de £ 1 bilhão (R$ 7,2 bilhões) aos agricultores, segundo dados citados pela publicação.
A consultoria Parker Walsh projeta aumento nos preços de pães, biscoitos e cerveja no próximo ano, além de alta nos valores de carne bovina e lácteos, já que o clima irregular força produtores a depender de ração em vez de pastagem.
Pressão sobre commodities
Os efeitos mais severos tendem a ocorrer próximo aos trópicos. Quase todos os El Niños recentes provocaram secas no Brasil, Vietnã, Colômbia e Indonésia, os quatro maiores produtores de café do mundo. O preço do café arábica no mercado de commodities já subiu 30%. Enquanto consumidores europeus podem reduzir o consumo, produtores na América do Sul e na Ásia podem enfrentar empobrecimento.
Um relatório do governo britânico alerta ainda para possível aumento no preço do chocolate. O clima seco alimenta incêndios de grandes proporções na Indonésia, segundo maior produtor de cacau. O Equador, quarto maior produtor, deve sofrer com chuvas intensas e inundações.
A maior preocupação, no entanto, recai sobre o arroz, base da alimentação de metade da população mundial. O El Niño reduziu em 13% a precipitação das monções de verão na Índia, maior produtor global. Em algumas regiões do centro do país, a colheita fracassou completamente. A expectativa é de queda de 7% na produção, equivalente a 10 milhões de toneladas.
Segundo Akshay Deoras, da Universidade de Reading, no Reino Unido, a Índia deve restringir exportações, como fez durante o El Niño de 2023-24, quando os preços globais subiram de 30% a 40%. “A inflação é um grande desafio nos próximos meses”, afirma.
Falhas em múltiplos pontos
Redes de supermercados em países que importam parcela relevante de seus alimentos, como o Reino Unido, costumam buscar arroz em fornecedores alternativos. O problema é que a seca associada ao El Niño também ameaça as safras no Vietnã e na Tailândia, próximos maiores exportadores. Além disso, o clima seco começa a comprometer plantações de trigo na Índia e na Austrália, dois importantes produtores. Califórnia e México, que abastecem a maior parte das frutas e vegetais consumidos nos Estados Unidos, enfrentam chuvas potencialmente danosas.
No cenário descrito como falha de múltiplos celeiros, torna-se difícil encontrar suprimentos substitutos, e um alimento básico pode se tornar muito caro ou indisponível. Enquanto países como China, Alemanha e Índia mantêm estoques de grãos para amortecer esses choques, Reino Unido e Estados Unidos não adotam a mesma estratégia.
“Com o El Niño, você tem esses fenômenos de mudanças nos padrões climáticos em todo o globo, e isso é parte do que torna tudo tão difícil”, diz Monika Zurek, da Universidade de Oxford. “Não é mais possível substituir facilmente.”
Vulnerabilidade social
Os mais vulneráveis tendem a ser os mais atingidos, já que famílias de menor renda destinam parcela maior do orçamento à alimentação, relação conhecida como Lei de Engel. Britânicos de baixa renda, que gastam 70% da renda disponível com comida, podem ser forçados a comprar alimentos de qualidade inferior. Em países de renda mais baixa, a população pode enfrentar insegurança alimentar, definida como acesso a menos de 2.500 calorias por dia.
A África Ocidental corre risco de fome devido à dependência de arroz importado, segundo a rede Famine Early Warning Systems Network. A maior preocupação, porém, é o sul e o leste da África, onde a seca do El Niño representa um choque adicional sobre problemas já existentes, como conflitos. O fenômeno pode comprometer plantações de sorgo e milheto na Etiópia, no Sudão e no Sudão do Sul, que já enfrentam alguns dos climas mais secos já registrados.
Em países do sudeste africano, como Zimbábue e Moçambique, a safra de milho pode secar. Durante o super El Niño de 2015-16, campos de milho viraram pilhas de cascas secas, pastagens ficaram repletas de carcaças e 36 milhões de pessoas na África enfrentaram fome. O cenário pode ser pior desta vez, já que a ajuda externa caiu 23% em 2025 e a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional foi extinta.
O El Niño chega ainda em meio a tensões entre Estados Unidos e Irã que afetam o transporte de diesel e fertilizantes pelo Estreito de Ormuz. Um relatório do centro de estudos Safe Climate Australia argumenta que, na Ásia, essa combinação pode levar a “agitação social e conflito em países vulneráveis, assim como a crise global do trigo se tornou um gatilho da Primavera Árabe”.
Deoras também vê esse risco. “Se você tem aumentos nos preços de alimentos e combustíveis, toda a reação negativa vai recair sobre o governo local”, diz.
O cenário ocorre enquanto a humanidade se aproxima do que deve ser o ano mais quente de sua história. Embora seja cedo para previsões, muitos agricultores e especialistas temem outro verão escaldante e seco em 2027. A Laines Organic Farm instala tanques para captar água da chuva e espera financiamento governamental para perfurar um poço. “É disso que todos os agricultores falam depois daquele verão quente. Todos deveriam ter seu próprio poço”, diz Farber. “O verão realmente nos devastou.”
Fonte: CartaLab.
