Segundo relatos da mídia árabe, o Irã lançou um ataque com drones contra uma base militar americana no Kuwait na madrugada de terça-feira, o que pode marcar uma mudança na estratégia de Teerã após vários dias de relativa contenção. Até então, o Irã havia limitado suas retaliações a ataques subsequentes a investidas diretas dos Estados Unidos contra território iraniano. O ataque de terça-feira ocorreu poucos dias depois de o presidente Trump ter suspendido uma grande ofensiva americana planejada contra o Irã, dando uma última chance à diplomacia.
Vídeos que circulam nas redes sociais parecem mostrar um grande incêndio dentro da base militar do Kuwait, após três drones terem supostamente atingido o local. Até o momento desta reportagem, autoridades americanas não haviam confirmado a extensão dos danos ou o número de vítimas. Em um incidente separado, na noite de segunda-feira, um navio cargueiro comercial teria sido atacado na costa de Omã, próximo ao Estreito de Ormuz. Há poucos detalhes disponíveis e nenhuma confirmação de qualquer ligação com o ataque ao Kuwait, embora os dois incidentes tenham ocorrido com poucas horas de diferença.
Trump anunciou no fim de semana que havia cancelado a ofensiva planejada, afirmando em uma publicação no Truth Social que intermediários sauditas, emiratis e catarianos lhe disseram que as negociações estavam progredindo rumo a um acordo que reabriria o Estreito de Ormuz à navegação comercial e, em última instância, abordaria o programa nuclear iraniano. O ataque com drone relatado para terça-feira ocorreu apesar dessa abertura diplomática.
A semana anterior
O ataque de terça-feira ocorreu após uma semana de intensificação dos ataques de ambos os lados. As forças americanas concluíram o que as autoridades descreveram como uma “forte onda” de ataques contra dezenas de alvos da Guarda Revolucionária Islâmica em todo o Irã na quarta-feira, 29 de julho. O exército iraniano respondeu com uma série de ataques retaliatórios reivindicados nos dias seguintes, nenhum dos quais foi confirmado de forma independente pelo Comando Central dos EUA.
Na quinta-feira, 30 de julho, o exército iraniano alegou ter atacado a Base Aérea de Sheikh Isa, no Bahrein, visando geradores de energia, sistemas de navegação e edifícios de apoio, segundo a mídia estatal iraniana. Na sexta-feira, 31 de julho, o exército iraniano reivindicou um novo ataque a duas instalações no Kuwait, a Base Aérea de Ali Al Salem e a Base Aérea de Ahmad al-Jaber, afirmando ter atingido hangares de caças, sistemas de comunicação via satélite e instalações de armazenamento de equipamentos militares dos EUA. Nem o CENTCOM nem autoridades kuwaitianas confirmaram essa alegação. O Irã também já havia reivindicado ataques com drones contra prédios administrativos e sistemas de navegação no Campo Arifjan, instalações de helicópteros no Campo Buehring e alojamentos de tropas em Ahmad al-Jaber. A mídia estatal iraniana classificou os ataques como retaliação aos ataques dos EUA na Ilha de Qeshm, que, segundo ela, causaram baixas civis, uma alegação que também não foi verificada de forma independente.
O conflito também atingiu o território egípcio pela primeira vez desde o início da guerra, no final de fevereiro. O Egito informou na quinta-feira que um drone atingiu dois navios em seu porto mediterrâneo de Damietta, provocando um incêndio; nenhum grupo reivindicou a autoria do ataque. Hamish Kinnear, analista para o Oriente Médio e Norte da África na empresa de inteligência de risco Verisk Maplecroft, classificou o ataque como um sinal da vulnerabilidade do Egito a um conflito crescente e alertou que o próprio Canal de Suez pode se tornar um alvo. “A expansão do alcance geográfico dos ataques com drones e mísseis contra navios neste ano, que abrangem o Mar Cáspio, o Mar Negro, o Mar Mediterrâneo, o Mar Vermelho, o Golfo Pérsico e o Oceano Índico, representa uma nova era de risco marítimo”, escreveu Kinnear em uma nota de pesquisa, acrescentando que as táticas desenvolvidas na Ucrânia e no Oriente Médio estão agora disseminando o risco marítimo muito além das zonas de conflito estabelecidas.
Os preços do petróleo subiram na sexta-feira, revertendo as perdas anteriores, depois que a agência de notícias iraniana Fars, ligada à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), informou que as forças iranianas impediram a passagem de dois petroleiros pelo Estreito de Ormuz e que outros quatro petroleiros mudaram de rota. Essa informação não foi verificada por fontes independentes.
Em declaração separada, Trump afirmou na quarta-feira que deseja que o Congresso inclua novas tarifas sobre o Irã em um projeto de lei bipartidário de sanções pendente, que visa atingir a Rússia e o Irã em conjunto. As tarifas em si teriam pouco impacto prático, visto que os Estados Unidos praticamente não importam nada do Irã, mas incluí-las no projeto de lei poderia dificultar sua aprovação.
Até terça-feira, nem Washington nem Teerã haviam confirmado se o canal diplomático descrito por Trump no fim de semana permanecia ativo após o suposto ataque ao Kuwait.
