Home Guerras‘Não queremos guerra com EUA, mas estamos preparados’, afirma Díaz-Canel

‘Não queremos guerra com EUA, mas estamos preparados’, afirma Díaz-Canel

por Últimos Acontecimentos
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O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel afirmou que a ilha socialista não busca confronto com os Estados Unidos, mas mantém prontidão diante de um cenário de ameaças do governo Trump. Em meio ao agravamento das pressões externas e ao endurecimento do bloqueio energético norte-americano, o líder cubano reforçou o caráter defensivo da estratégia adotada por Havana.

“Cuba não é uma ameaça à segurança dos Estados Unidos. Os Estados Unidos sempre desempenharam o papel de potência agressora, e Cuba, o de ilha agredida. Portanto, sempre tivemos que nos preparar para o perigo iminente de uma agressão militar, que se manifestou em diferentes níveis, em diferentes governos dos Estados Unidos, em distintos momentos do contexto internacional e também regional”, disse.

Segundo o mandatário cubano, a posição de Cuba parte de uma tradição histórica de resistência e da necessidade de preservar a soberania nacional diante de ameaças recorrentes, destacando que o país não representa risco à segurança norte-americana e que qualquer agressão seria injustificada. Apesar do cenário, Díaz-Canel reiterou a disposição para o diálogo com Washington, desde que conduzido em bases de respeito mútuo e sem imposições. Para ele, a negociação continua sendo o caminho preferencial, ainda que o país siga se preparando para cenários adversos.

O presidente destacou que Cuba tem recebido apoio tanto do Brasil quanto de diversos países e atores internacionais, em um movimento que combina iniciativas governamentais e solidariedade popular. Segundo ele, o governo brasileiro tem atuado na denúncia do bloqueio e busca formas de enviar ajuda material, enquanto movimentos sociais e representantes políticos também contribuíram com doações diretas ao povo cubano.

Esse apoio se soma ao de países como China, Colômbia, México e Rússia que têm enviado alimentos, insumos e suporte energético, além da participação de organizações e grupos internacionais que mobilizam recursos e ações solidárias diante das dificuldades enfrentadas pela ilha.

Presidente, na sua opinião, há risco real de uma intervenção militar dos Estados Unidos na ilha?

Cuba é um país de paz. Já o demonstramos ao longo da história. Cuba não é uma ameaça à segurança dos Estados Unidos. Cuba não é um país que tenha pretendido agredir ninguém, nunca. Portanto, a partir dessa visão, posso garantir que não há justificativa nem qualquer desculpa possível para que o governo dos Estados Unidos tente uma agressão contra nós. Assim, uma agressão contra Cuba só poderia ocorrer por uma abordagem hegemônica, prepotente e agressiva dos Estados Unidos em relação ao nosso país. E essa tem sido, precisamente, a história das relações entre Cuba e os Estados Unidos ao longo dos anos da Revolução.

Os Estados Unidos sempre desempenharam o papel de potência agressora, e Cuba, o de ilha agredida. Portanto, sempre tivemos que nos preparar para o perigo iminente de uma agressão militar, que se manifestou em diferentes níveis, em diferentes governos dos Estados Unidos, em distintos momentos do contexto internacional e também regional.

Portanto, digo-lhe que, nas condições atuais, é possível que tentem agredir Cuba. Devemos nos preparar para que não haja surpresa nem derrota. Não promovemos a guerra, não a estimulamos, mas não a tememos se for necessário defender a Revolução, a soberania e a independência do país.

Preparamo-nos não com uma visão ofensiva, mas com uma visão defensiva, baseada em uma concepção construída também em contextos anteriores de agressão por parte de governos dos Estados Unidos. Essa concepção combina uma estratégia de guerra simétrica, a partir de nossa experiência histórica, com uma guerra irregular de participação popular — conhecida como “guerra de todo o povo” —, na qual cada cubano tem um papel e uma missão na defesa da pátria, o que constitui uma honra e um dever, conforme estabelece nossa Constituição.

O senhor está pessoalmente preparado para o risco de uma intervenção militar dos Estados Unidos?

Claro que sim. Estamos todos preparados em Cuba, e todos aqueles que ocupam cargos de responsabilidade também estão.

Há negociações com os Estados Unidos neste momento?

Tentamos iniciar um diálogo. Negociar ou chegar a um acordo em uma relação entre nações e governos é um processo longo, que exige, primeiro, o estabelecimento de canais de diálogo, a construção de uma agenda de debate e, a partir dela, a possibilidade de alcançar entendimentos.

Cuba sempre teve disposição histórica para dialogar com o governo dos Estados Unidos, desde que isso ocorra com respeito ao nosso sistema político, à nossa soberania e à nossa independência, sem imposições e em condições de igualdade. Impor condições não é dialogar, e a imposição inviabiliza a negociação. Um processo de diálogo é, antes de tudo, delicado, pois envolve relações bilaterais entre países. Deve ser conduzido com responsabilidade, ética e decência.

Essa é uma posição histórica de Cuba nas relações com os Estados Unidos. Em diferentes administrações, esses processos avançaram mais ou menos, mas sempre existiram. Neste momento, estamos em uma fase muito preliminar, inicial, do que pode vir a ser um processo mais amplo de conversações.

Presidente, o Brasil está ajudando Cuba? Sei que o senhor recebeu Chico Buarque recentemente. O Brasil está prestando ajuda neste momento?

O Brasil é uma nação irmã, com a qual mantemos excelente relação governamental. Também temos uma relação muito positiva com o presidente Lula. Os povos do Brasil e de Cuba são irmãos, unidos por sentimentos de amizade, respeito e admiração mútua. Recebemos apoio tanto do governo quanto do povo brasileiro e de seus movimentos sociais. No comboio que mencionei, vieram representantes de partidos de esquerda, do Movimento dos Sem-Terra e de outros movimentos sociais, trazendo doações ao povo cubano.

O governo brasileiro tem sido um dos mais ativos na denúncia do bloqueio energético e do bloqueio em geral contra Cuba. O presidente Lula sempre foi um porta-voz dessa denúncia e do apoio ao nosso país. Além disso, o governo brasileiro busca formas de enviar ajuda material, embora esteja sujeito às limitações impostas por esse sistema.

Ainda não chegou?

A ajuda ainda não chegou. O problema é que o sistema de bloqueio, ampliado com a aplicação do Capítulo III da Lei Burton, afeta não apenas a economia cubana, mas também qualquer relação econômica com Cuba, envolvendo empresários ou instituições de qualquer parte do mundo. Os países também ficam sujeitos a essas medidas coercitivas impostas pelos Estados Unidos.

Apesar disso, há disposição do governo brasileiro em ajudar. Empresários brasileiros também têm apoiado Cuba em diversos processos. Observamos, por exemplo, as experiências do Brasil com biocombustíveis e buscamos desenvolver tecnologias nessa área. O Brasil também tem apoiado nosso país com alimentos.

Qual é a necessidade diária de combustível de Cuba?

Nós temos uma parte do combustível. Podemos operar com cerca de 7 milhões de toneladas por ano e produzimos entre 3 e 4 milhões de toneladas com petróleo nacional. O restante, porém, precisamos importar. Portanto, hoje garantimos a geração de energia elétrica de nossas usinas termelétricas com petróleo nacional, mas temos mais de 100 MW de geração distribuída que recuperamos ao longo desse período, como parte dos investimentos que vínhamos realizando para melhorar a estabilidade do sistema elétrico nacional, e que, há quatro meses, não estão disponíveis por falta de combustível.

O que nos permite manter a geração de energia elétrica são os investimentos que vínhamos fazendo, com a mudança da matriz energética para fontes renováveis, sobretudo em parques fotovoltaicos. No ano passado, instalamos mais de 1.000 MW, passando de 3% para 10% de participação desse tipo de energia — ou seja, crescemos, em um ano, 10% na geração com fontes renováveis.

Portanto, já há um primeiro fator de grande impacto, que é o energético. Praticamente, o que geramos é suficiente apenas para garantir um nível mínimo de energia elétrica para as atividades essenciais da vida cotidiana. A geração para a população é muito limitada, enquanto quase toda a economia fica paralisada, o que começa a afetar a produção e os serviços.

Já tivemos momentos de 30 horas consecutivas de apagão em uma comunidade. Tudo isso nos levou a adotar um conjunto de medidas para reorganizar, por exemplo, a atividade laboral. Tivemos que realocar pessoas, mudar atividades produtivas e recorrer mais ao trabalho remoto ou ao teletrabalho.

Também reorganizamos as atividades escolares: tanto o ensino fundamental quanto o superior passaram a adotar formatos menos presenciais, com maior uso de tecnologias de ensino a distância. No entanto, o uso dessas tecnologias também é limitado, pois, durante apagões, as conexões são interrompidas, dificultando o acesso a plataformas didáticas e pedagógicas.

Miguel Díaz-Canel
Presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel disse que país irá defender Revolução e soberania em caso de intervenção dos EUA

Há também um impacto significativo nos sistemas de saúde, especialmente nos serviços de cirurgia. Temos uma lista de mais de 96 mil pessoas aguardando procedimentos, entre elas mais de 11 mil crianças. São atividades que sabemos realizar e realizar bem, mas estamos limitados por algo que representa uma punição coletiva.

É uma política criminosa, realmente genocida. Tudo se complica: o transporte, o abastecimento de água — já que, sem energia, os sistemas de bombeamento são interrompidos — e os ciclos de distribuição se prolongam. Há impacto em diversos serviços, como a coleta de lixo sólido, pois falta combustível para quase tudo.

Às vezes, há alimentos e medicamentos, mas não há como transportá-los com eficiência e no tempo necessário. Na vida cotidiana, imagine uma família enfrentando longas horas de apagão. Se a energia retorna de madrugada, esse período se transforma em tempo para realizar tarefas domésticas que não puderam ser feitas antes.

No dia seguinte, essa família estará cansada para trabalhar e levar as crianças à escola. Soma-se a isso a dificuldade de transporte, de acesso ao café da manhã e até de retorno para casa. Em que momento as crianças podem fazer suas tarefas escolares sem energia? Isso prejudica diretamente o aprendizado.

Faltam medicamentos. Temos tratamentos para pacientes oncológicos que não conseguimos adquirir devido ao agravamento do bloqueio. Faltam serviços e produção para atender diversas necessidades. O que devemos considerar é a capacidade de resistência desse povo, que, nessas condições, conseguiu se manter unido, preservar a esperança e não se dobrar.

Presidente, como descreveria o impacto do endurecimento do bloqueio norte-americano sobre a economia e a vida cotidiana em Cuba nos últimos meses?

Para explicar esse impacto, podemos analisá-lo em dois âmbitos: o nacional e o cotidiano da vida familiar. Em primeiro lugar, é importante destacar que a situação atual — especialmente nos últimos quatro meses, após a ordem executiva de 29 de janeiro, que impõe um bloqueio energético sob a alegação de que Cuba seria uma ameaça extraordinária aos Estados Unidos — não é recente. Trata-se de um processo acumulado que vem se tornando cada vez mais complexo.

Cuba enfrenta bloqueio há mais de 60 anos, mas ele adquiriu nova dimensão no final de 2019, quando o governo Trump adotou cerca de 240 medidas e incluiu o país na lista de Estados que supostamente apoiam o terrorismo. Isso intensificou e internacionalizou o bloqueio.

A partir daí, surgiram problemas com divisas, produção, acesso a matérias-primas, turismo, remessas e viagens. Houve também perseguição financeira e energética, agravando carências de alimentos, medicamentos e itens básicos, situação que se prolongou durante a pandemia sob a manutenção dessa política.

Posteriormente, com novas medidas, incluindo sanções à Venezuela, o fornecimento de combustível ao país foi afetado, culminando na imposição de um bloqueio energético. Nenhuma economia pode sobreviver sem combustível, e seus efeitos se refletem diretamente na geração de energia elétrica.

Qual é o papel da solidariedade internacional nesse contexto, especialmente de Rússia e China?

Cuba mantém laços históricos de amizade, solidariedade e cooperação com China e Rússia. Ambos os países têm contribuído, dentro de suas possibilidades, para o apoio energético e alimentar, mesmo diante das restrições impostas por sanções.

Além da ajuda governamental, há forte participação de movimentos sociais e iniciativas solidárias internacionais. Recentemente, o país recebeu um comboio internacional com representantes de diversos movimentos e doações populares.

Os principais desafios atuais são energia, medicamentos e alimentos. Houve apoio significativo do México, com envio de suprimentos e materiais para sistemas fotovoltaicos. Colômbia, China e Vietnã também contribuíram com ajuda, especialmente nas áreas alimentar e energética.

Os envios de petróleo da Rússia são suficientes?

Cuba passou quatro meses sem receber combustível, operando apenas com reservas. Recentemente, chegou um navio russo com petróleo — um gesto simbólico importante, embora insuficiente para resolver totalmente a situação.

A carga representa cerca de um terço da necessidade mensal e garante abastecimento por aproximadamente 10 dias. Esse combustível permitirá ampliar temporariamente a geração de energia, especialmente no período noturno, mas seus efeitos são limitados no tempo.

A Rússia anunciou novos envios, e Cuba reafirma seu direito de importar combustível. Além disso, o país passou a autorizar a importação por entidades privadas — algo inédito —, o que tem permitido pequenas entradas de combustível, ainda que em volumes reduzidos e com processos complexos.

Fonte: Opera Mundi.

“E ouvireis de guerras e de rumores de guerras;…” Mateus 24:6

21 de abril de 2026.

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