Há uma tendência compreensível de procurar um gatilho único para explicar uma catástrofe. No Nepal, porém, o mais importante talvez seja compreender a sequência de transformações que permitiu que o colapso de uma geleira terminasse, quilômetros abaixo, como uma inundação devastadora.
As imagens de satélite mostram que uma parte significativa da frente de uma geleira se desprendeu a cerca de 5.200 metros de altitude e despencou aproximadamente 1.200 metros até o fundo do vale. Gelo, rochas e sedimentos atingiram a drenagem do rio Lhende e, segundo a principal hipótese das autoridades nepalesas, bloquearam temporariamente seu curso.
A barragem natural acumulou água até ceder. A partir daí, uma avalanche de gelo e rocha havia se transformado em uma cheia carregada de sedimentos e blocos, que avançou pelos sistemas dos rios Bhote Koshi e Trishuli.
A sequência também mudou a interpretação inicial do desastre. O sinal atribuído nas primeiras horas a um terremoto de magnitude 4,4 foi posteriormente relacionado ao próprio movimento de massa. Tampouco houve chuva intensa capaz de explicar a dimensão da inundação.
É nesse ponto que as mudanças climáticas deixam de ser apenas cenário. O Hindu KushHimalaia perdeu cerca de 12% de sua área glacial e 9% de suas reservas estimadas de gelo entre 1990 e 2020. Desde o início deste século, a taxa de perda de gelo praticamente dobrou. No Nepal, estimativas citadas pelas Nações Unidas indicam que as montanhas perderam perto de um terço de seu gelo em pouco mais de três décadas em razão do aquecimento global.
Não é razoável tratar esses números como independentes do colapso de uma frente de geleira. O gatilho exato da ruptura ainda poderá envolver fatores locais e precisa ser investigado, mas o aquecimento está alterando a geometria, a massa e a estabilidade das geleiras do Himalaia. As mudanças climáticas entram, portanto, na cadeia causal do desastre, ainda que não constituam sua única explicação.
O episódio também revela os limites de uma solução aparentemente óbvia: instalar sistemas de alerta. Eles são fundamentais quando o perigo é conhecido e espacialmente delimitado. O problema é que o Nepal possui uma geografia extremamente complexa, formada por montanhas íngremes, vales profundos e rios encaixados, muitas vezes com pouca área lateral para dissipar rapidamente uma cheia.
Uma onda de água e detritos pode percorrer esses corredores em poucos minutos. Instrumentar todas as bacias potencialmente vulneráveis exigiria uma rede extensa de sensores, energia, manutenção e telecomunicações em terreno de difícil acesso. Para um país de renda média-baixa e recursos limitados, o custo seria elevado e a eficiência não estaria assegurada.
Alerta também não termina na sirene. É necessário transmitir a informação rapidamente, garantir que ela chegue às comunidades ameaçadas e estabelecer rotas de fuga capazes de retirar pessoas de vales estreitos onde, em alguns casos, quase não há para onde correr.
Por isso, a estratégia mais eficiente começa antes do sistema de alerta. O Nepal e os demais países do Himalaia precisam ampliar o uso de imagens de satélite e análises de risco para identificar geleiras, frentes e massas de gelo que apresentem maior instabilidade, acompanhando alterações de geometria, velocidade, fraturas e perda acelerada de massa.
A partir desse mapeamento, torna-se possível estabelecer prioridades. Geleiras potencialmente instáveis situadas acima de comunidades, estradas, pontes ou usinas hidrelétricas devem receber monitoramento mais intenso e, quando necessário, sistemas específicos de alerta e evacuação.
O desastre desta quarta-feira foi difícil de antecipar. Mas pode estar mostrando uma categoria de risco que ganhará importância à medida que o Himalaia continuar perdendo gelo.
Não será possível colocar sensores em todas as montanhas. Será possível, porém, identificar quais delas oferecem maior ameaça. No Himalaia em transformação, a sirene é a última etapa da prevenção. A primeira é descobrir onde a montanha pode ceder.
Fonte: CNN.
