O Vaticano alertou sobre o risco de um apocalipse provocado pela inteligência artificial anos antes de grandes empresas norte-americanas darem o alarme no Conselho de Segurança das Nações Unidas na quarta-feira — uma preocupação que o papa Leão está colocando no centro de seu papado.
Leão, que em maio exortou os líderes mundiais a estabelecerem regras globais para supervisionar o setor, renovou suas advertências sobre a IA em uma reunião no Vaticano nesta quinta-feira e deve fazê-lo novamente na sexta-feira, em um discurso na sede da Unesco, em Paris, órgão da ONU responsável pela cultura e educação.
“Isso não é novidade para a Santa Sé”, afirmou à Reuters o padre Paolo Benanti, um dos principais assessores do Vaticano em questões de IA, referindo-se aos recentes apelos por uma desaceleração que foram endossados pelos CEOs das empresas de IA Anthropic, OpenAI e xAI, entre outras.
“O poder transformador da IA… poderia produzir mudanças sociais de uma magnitude muito difícil de prever”, disse Benanti, um acadêmico italiano que recentemente participou da cúpula sobre IA organizada pelo rei Charles, do Reino Unido.
O padre disse que não poderia revelar detalhes sobre o conteúdo das discussões confidenciais da cúpula.
Em um discurso na Pontifícia Academia de Ciências na quinta-feira, Leão afirmou que a IA pode beneficiar a humanidade, mas que ela introduziu “novos perigos à segurança e à paz internacional”. Ele exortou os líderes globais a “governarem com sabedoria” na supervisão da tecnologia.
Leão, o primeiro papa nascido nos Estados Unidos, tem levantado com frequência os possíveis perigos do desenvolvimento da IA ao longo de seu papado de 16 meses e discutiu a questão publicamente pela primeira vez em seu terceiro dia no cargo.
No apelo de maio, divulgado como seu primeiro documento importante, Leão alertou que os sistemas de IA disseminam desinformação, priorizam o conflito e podem conduzir o mundo a um caminho de guerra sem fim.
LEÃO ALERTA SOBRE ARMAS AUTÔNOMAS
O Vaticano começou a alertar sobre os riscos da IA em 2019, organizando duas conferências naquele ano sobre os possíveis perigos da tecnologia. O falecido papa Francisco advertiu os participantes de um dos eventos que a desinformação disseminada pela IA poderia desencadear uma guerra mundial.
O Vaticano também se uniu a Microsoft, IBM, Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura e ao governo italiano em 2020 para lançar um apelo pelo desenvolvimento de IA que “não tenha como único objetivo o aumento do lucro ou a substituição gradual das pessoas no local de trabalho”.
Leão insistiu na necessidade de supervisão, especialmente no que diz respeito ao desenvolvimento de sistemas de armas, como aqueles que estão sendo usados na guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Ele afirmou em sua encíclica que tais armas avançaram “praticamente além de qualquer alcance humano para controlá-las”.
A defesa do Vaticano no cenário global contra armamentos autônomos remonta a décadas, disse Benanti, comparando drones movidos a IA a minas terrestres que atingem alvos indiscriminadamente.
O padre comparou as advertências do Vaticano sobre os riscos da IA à forma como os papas há muito vêm clamando pelo desarmamento nuclear.
“Se as armas nucleares podem destruir a humanidade… a manipulação de conteúdo gerado por IA nos espaços sociais pode destruir a capacidade das pessoas de permanecerem unidas como sociedade”, disse ele.
“As armas nucleares precisam ser armazenadas em instalações e é possível contá-las e controlá-las. A IA não é tão visível assim.”
Fonte: Reuters.
