Quatro em cada cinco famílias no Líbano têm dificuldades em satisfazer as suas necessidades básicas e admitem que os seus filhos vão dormir com fome, avança um relatório divulgado esta quarta-feira pela UNICEF.
O relatório, intitulado “Um Pesadelo Persistente”, alerta para a deterioração das condições de vida das crianças e jovens em todo o país e observa que 22% das famílias inquiridas afirmaram que as suas crianças passam fome.
O cenário, sublinha a agência da ONU dedicada às crianças, é reforçado pelo aprofundamento do conflito no país, onde Israel intensificou, no mês de setembro, os bombardeamentos e operações militares, na sequência da rejeição do desarmamento da milícia paramilitar Hezbollah.
O conflito e uma prolongada crise económica “agravam a pobreza infantil e obrigam mais crianças a passar fome, a abandonar a escola ou a trabalhar”, refere o relatório da UNICEF, sublinhando que a situação é especialmente preocupante entre as crianças com menos de cinco anos.
De acordo com o documento, apenas 10% das famílias com crianças nesta faixa etária afirmaram conseguir proporcionar-lhes uma alimentação suficientemente nutritiva e 31% indicaram que os seus filhos não recebem os cuidados médicos necessários, principalmente por falta de recursos financeiros.
“As famílias estão sobrecarregadas e as crianças não têm acesso a cuidados de saúde e educação, sendo forçadas a trabalhar e sujeitas a um profundo sofrimento psicológico”, afirmou o representante da UNICEF no Líbano, Marcoluigi Corsi.
A situação requer uma resposta sustentada, sob pena de estas pressões poderem ter consequências durante muitos anos, defendeu.
O Líbano é palco de um conflito direto com Israel, que pretende destruir o grupo xiita Hezbollah, desde 8 de outubro de 2023, imediatamente após o início da guerra na Faixa de Gaza.
O Hezbollah disparou mísseis contra posições israelitas em solidariedade com o Hamas, abrindo o que chamou de “frente de apoio”.
Depois de uma frágil trégua acordada no final de 2024, o conflito agravou-se a 2 de março deste ano, após o Hezbollah ter retomado os ataques em retaliação pela morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, assassinado dias antes num ataque conjunto dos Estados Unidos e de Israel no Irão.
Desde este recrudescimento dos ataques, pelo menos 261 crianças foram mortas e outras 1.056 ficaram feridas – uma média de sete crianças mortas ou feridas a cada dia nos últimos seis meses, alerta a agência das Nações Unidas para a infância.
A educação também foi gravemente afetada durante este período, com cerca de 436 escolas danificadas ou destruídas, deixando quase 100 mil crianças em risco de ficarem sem estudar, enquanto 86 professores foram mortos ou feridos.
A UNICEF refere ainda que os efeitos da crise vão muito para além dos danos materiais, estimando que cerca de 770 mil crianças tenham sofrido angústia psicológica nos últimos seis meses.
Segundo a organização, estes números refletem as crescentes dificuldades que os jovens enfrentam para prosseguir os estudos, aceder aos serviços básicos e desenvolver oportunidades futuras no país.
Embora a UNICEF tenha aumentado, em janeiro passado, a sua resposta às necessidades humanitárias no Líbano, o responsável no país alerta para a necessidade de uma ação urgente e contínua.
Sem isso, “toda uma geração de crianças e jovens corre o risco de sofrer as consequências desta crise na vida adulta”, concluiu Marcoluigi Corsi.
Fonte: JN.
