Em preparação para as eleições de junho, o Partido do Contrato Civil, no poder na Armênia, publicou uma plataforma política que exige a destituição do Católico de Todos os Armênios e delineia um roteiro político para a reestruturação da Igreja Apostólica Armênia.
Essa medida sem precedentes, segundo críticos, representa uma violação direta da constituição do país e uma escalada drástica da interferência do Estado em assuntos religiosos.
O programa, divulgado antes das próximas eleições, lista como seu décimo objetivo político a remoção do “chefe de facto” da Santa Igreja Apostólica Armênia, uma referência ao Católico Karekin II. Notavelmente, o documento evita usar seu título eclesiástico, referindo-se a ele em termos depreciativos que, segundo observadores, refletem um esforço mais amplo para minar tanto o cargo quanto a instituição.
Além da mudança de liderança, a plataforma do partido propõe uma série de reformas abrangentes na Igreja, incluindo a nomeação de um Católico Locum Tenens, a elaboração de uma nova carta eclesiástica e a eventual eleição de um novo Católico sob estruturas revisadas. A carta proposta introduziria mecanismos de supervisão financeira e disciplina clerical — áreas tradicionalmente governadas internamente pela Igreja.
Especialistas jurídicos e defensores da liberdade religiosa alertam que tais propostas constituem interferência política direta na governança interna de uma instituição religiosa. A Constituição da Armênia reconhece o papel singular da Igreja Apostólica Armênia na vida nacional e consagra o princípio da separação entre Igreja e Estado.
Essa estrutura dual é ainda reforçada pela lei de 2007 sobre as relações entre Igreja e Estado, que reconhece explicitamente o direito da Igreja à autogovernança. Os críticos argumentam que qualquer tentativa de um partido político de predeterminar mudanças de liderança ou impor reformas estruturais viola essas proteções.
Histórico recente de tensões
O ocorrido representa o mais recente ponto de tensão em um conflito contínuo entre o governo do primeiro-ministro Nikol Pashinyan e a Igreja Apostólica Armênia. Ao longo do último ano, as tensões aumentaram significativamente, com o governo demonstrando crescente hostilidade em seus esforços para restringir a independência da igreja.
No início deste ano, promotores armênios abriram um processo criminal contra o Católico Karekin II. Além das acusações criminais, o Católico também foi proibido de viajar para o exterior, segundo o advogado Ara Zohrabyan. A proibição coincidiu com uma importante assembleia de bispos armênios que estava programada para acontecer na Áustria naquela semana, impedindo a presença do Católico, apesar de sua função eclesiástica como chefe da Igreja Apostólica.
Para muitos armênios, a questão vai além das preocupações legais. Mais de 90% da população se identifica com a Igreja Apostólica Armênia, que há muito tempo serve como pilar da identidade nacional, especialmente durante períodos de dominação estrangeira e genocídio.
Historicamente, as tentativas de exercer controle político sobre a igreja têm sido associadas a potências externas, incluindo as autoridades soviéticas, que buscavam limitar a influência religiosa. Os críticos alertam que as propostas atuais ecoam esses esforços anteriores, gerando preocupação quanto ao futuro da liberdade religiosa no país.
Talvez o mais preocupante, observam os analistas, seja a forma como a política está inserida numa plataforma eleitoral mais ampla. Como as medidas relacionadas à igreja são apenas uma parte de uma agenda política abrangente que aborda questões econômicas e sociais, os eleitores podem não perceber totalmente as suas implicações.
Caso o partido no poder obtenha a vitória eleitoral, poderá posteriormente reivindicar um mandato público para implementar as mudanças propostas, incluindo a intervenção na governança da igreja — apesar da ausência de um debate público explícito sobre o assunto.
À medida que a Armênia se aproxima de suas próximas eleições, a inclusão de tais medidas sinaliza um momento potencialmente transformador para as instituições democráticas do país e para sua igreja histórica — um momento que poderá redefinir os limites entre a autoridade política e a autonomia religiosa.
