Enquanto a igreja global se volta para a Páscoa, cristãos no Irã e Iraque compartilham uma perspectiva moldada por sofrimento, tensão e, ao mesmo tempo, uma esperança que insiste em sobreviver.
Mousa*, líder cristão iraniano que acompanha de perto igrejas domésticas e a diáspora – movimento de iranianos que buscam refúgio fora do país, em nações vizinhas ou em outras partes do mundo –, descreve esse momento como um paradoxo vivo.
“A dor é real, a incerteza é real. Ainda assim, em meio à escuridão, permanece uma esperança teimosa que se recusa a morrer”, afirma Mousa.
Segundo o cristão iraniano, a guerra iniciada em 28 de fevereiro de 2026 deixou marcas profundas no coração da população. Famílias enfrentam perdas, cidades lidam com medo e muitos, mesmo vivendo fora do país, carregam o peso emocional do conflito.
“Há no coração de muitos iranianos uma mistura de tristeza e alegria, medo e esperança, desespero e desejo pela vida. É como o vale de ossos secos de Ezequiel 37. Um povo exausto, ferido, que se pergunta se a vida pode ressurgir”, explica Mousa.
O que a Páscoa significa para cristãos em guerra
Para ele, o texto bíblico é profundamente atual: assim como o profeta viu Deus restaurar aquilo que parecia perdido, a Semana Santa relembra que, da morte, surgiu vida e que a ressurreição rompeu o domínio da desesperança.
“O mesmo Espírito que ressuscitou Jesus é quem dá vida hoje. Eles sentem o peso da guerra, mas proclamam a ressurreição. Veem trevas, mas sabem que o túmulo está vazio”, diz Mousa, citando Romanos 8.11.
O impacto da guerra também atinge países vizinhos
Assim como no Irã, a guerra reverberou fortemente no Iraque. Em 2024, vídeos mostravam milhares de cristãos celebrando o Domingo de Ramos nas ruas, com bandeiras, ramos de palmeira, cantos e procissões vibrantes. Imagens que expressavam a vida e a fé das comunidades iraquianas — e a coragem, pois estavam expostos e sob risco de ataques no país que faz parte da Lista Mundial da Perseguição há muitos anos.
Mas, em 2026, a mesma guerra que afeta o Irã levou líderes iraquianos a cancelar todas as celebrações públicas. O risco de ataques, especialmente nas áreas de maioria cristã no Norte do país, fez com que as igrejas restringissem todas as atividades ao interior dos templos.
A diferença entre os vídeos de 2024 e a realidade atual revela o quanto o conflito transformou o cotidiano dos cristãos na região.
Entre o sofrimento e a esperança
Tanto no Irã quanto no Iraque, cristãos vivem uma Páscoa marcada por paradoxos. Dor e fé, medo e coragem, espera e esperança.
Para muitos, esse tempo lembra o Sábado Santo: um período de silêncio, expectativa e confiança de que a história não termina na guerra.
Como afirma Mousa:
“A ressurreição é uma realidade presente. Cristo vivo vê nossa dor, conhece nossas lágrimas e continua trazendo vida onde a morte parece reinar.”
