Sudão completou, em 15 de abril, três anos de uma guerra civil descrita hoje como a pior crise humanitária do mundo. Pelo menos 59.000 pessoas foram mortas. Houve várias acusações de genocídio em Darfur. Quatorze milhões de pessoas, aproximadamente um quarto da população, foram forçadas a deixar suas casas, enquanto 19 milhões enfrentam fome aguda e mais de 33 milhões necessitam de assistência.
Com o choque do petróleo provocado pela ofensiva militar dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã e a consequente elevação dos preços de alimentos e de combustíveis, uma economia já devastada tem sua situação agravada ainda mais. E, no entanto, ainda não há fim à vista para os combates entre o exército sudanês e seu antigo aliado, as Forças de Apoio Rápido paramilitares (RSF).
Os drones também expandiram o campo de batalha, com aqueles que vivem longe das linhas de frente passando a enfrentar ameaças. Segundo a organização Médicos Sem Fronteiras, nos últimos meses foi observada uma mudança com o uso extensivo desse tipo de equipamento tendo como alvo infraestrutura e áreas civis povoadas. Desde fevereiro, a MSF tratou cerca de 400 pessoas com ferimentos causados por drones após ataques que atingiram áreas civis no leste do Chade , bem como em várias áreas de Darfur. A Organização das Nações Unidas (ONU) afirma que esses ataques mataram mais de 500 civis entre 1º de janeiro e 15 de março.
“As equipes estão recebendo pacientes com ferimentos horríveis: pacientes com ferimentos de estilhaços, com membros amputados, queimaduras devastadoras — muitas já chegam mortas ao hospital”, descreve Muriel Boursier, coordenadora de emergência da MSF em Darfur. “A escala de violência e atrocidade que testemunhamos é insuportável.”
Desnutrição e surtos de doenças
Além dos impactos diretos do conflito bélico, surtos de doenças e desnutrição estão aumentando, enquanto o acesso aos serviços de saúde também permanece debilitado. Há relatos de malária, dengue, sarampo, poliomielite (cVDPV2), hepatite E, meningite e difteria em vários estados do país.
“A guerra no Sudão está devastando vidas e negando às pessoas seus direitos mais básicos, incluindo saúde, água, alimentação e segurança. O sistema de saúde foi paralisado, deixando milhões sem cuidados médicos essenciais”, explicou o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus. “Médicos e profissionais de saúde podem salvar vidas, mas precisam de locais de trabalho seguros e dos medicamentos e suprimentos necessários. Em última análise, o melhor remédio é a paz”, pontuou ao site da entidade.
Estima-se que mais de 4 milhões de pessoas sofrerão de desnutrição aguda em 2026, o que as tornará vulneráveis a complicações médicas e doenças. Nos 18 estados do Sudão, 37% das unidades de saúde permanecem inoperantes, já que hospitais, clínicas, ambulâncias, pacientes e profissionais de saúde têm sido alvo de ataques repetidos. Conforme a OMS, 217 ataques a serviços de saúde foram registrados desde 15 de abril de 2023, com 2052 mortes e 810 feridos.
Desde abril de 2023, quase 14 milhões de pessoas foram forçadas a deixar suas casas, e muitas tiveram que fugir várias vezes, perdendo tudo. De acordo com o Armed Conflict Location & Event Data (ACLED), um monitor independente de conflitos, e 15 de abril de 2023 a 27 de março de 2026, foram registrados pelo menos 13.401 ataques, uma média de 12 por dia. O Exército do Sudão foi responsável por 53% de todos os ataques registrados (7.100), enquanto as Forças de Apoio Rápido (RSF) realizaram 35% (4.705). Os 12% restantes (1.596 ataques) foram atribuídos a vários outros grupos, como as Forças de Defesa Popular, o Movimento Popular de Libertação do Sudão, a Milícia do Clã Twic e outros agrupamentos.
Fonte: Forum.
