A insegurança alimentar continua afetando de forma desproporcional mulheres negras, famílias do Norte e Nordeste e moradores da zona rural, mesmo após a melhora dos indicadores nacionais de acesso à alimentação no país.
Segundo o relatório “As faces da desigualdade: raça, sexo e alimentação no Brasil (2017-2023)”, divulgado pela FIAN Brasil, o Brasil avançou na recuperação da segurança alimentar após o período crítico da pandemia de Covid-19, mas preserva desigualdades estruturais ligadas a raça e gênero.
Segundo o levantamento, 72,4% dos domicílios brasileiros estavam em situação de segurança alimentar em 2023, acima dos 63,3% registrados em 2017-2018. Já a insegurança alimentar grave — associada à fome — caiu para 5% dos lares brasileiros.
Entre os domicílios chefiados por homens brancos, 84,2% estavam em situação de segurança alimentar em 2023. Nos lares chefiados por mulheres negras, o índice cai para 61,4%.
A insegurança alimentar também se concentra de forma mais intensa justamente entre mulheres negras. Segundo o relatório, 38,5% dos lares chefiados por mulheres negras conviviam com algum grau de insegurança alimentar, contra 15,7% entre domicílios chefiados por homens brancos.
O documento destaca ainda que Norte e Nordeste apresentam os piores indicadores do país, especialmente entre famílias negras. Em algumas regiões, quase metade dos domicílios liderados por mulheres negras enfrentava algum nível de insegurança alimentar.
A pesquisa também relaciona o agravamento da fome entre 2020 e 2022 às políticas de austeridade fiscal e ao desmonte de programas sociais durante os governos Michel Temer e Jair Bolsonaro. Segundo os autores, a pandemia aprofundou desigualdades já existentes e atingiu de forma mais severa grupos historicamente marginalizados.
Por outro lado, o relatório aponta que a retomada de políticas públicas de combate à fome e de segurança alimentar a partir de 2023 contribuiu para a melhora dos indicadores nacionais e para a saída do Brasil do Mapa da Fome da ONU.
Ainda assim, os pesquisadores alertam que a recuperação não eliminou as “linhas invisíveis” que estruturam a desigualdade social brasileira. O estudo sustenta que raça, gênero e renda seguem definindo quem tem maior acesso à alimentação adequada no país.
Fonte: JornalGGN.
