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Os riscos de uma tomada do Monte do Templo por Israel

por Últimos Acontecimentos
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O reino da Jordânia realizou nesta semana uma reunião de emergência com ministros das Relações Exteriores de vários países árabes e muçulmanos. Em debate esteve o que a Jordânia classificou como uma ameaça “iminente” de uma tomada de controle por parte de Israel da Esplanada das Mesquitas ou Monte do Templo, em Jerusalém Oriental.

Uma declaração divulgada após uma reunião foi explícita sobre os riscos envolvidos. As violações israelenses em um dos locais mais sagrados do islã, a Mesquita de Al-Aqsa, poderiam levar a “um conflito religioso com repercussões que se estenderão além da região e ameaçarão a paz e a segurança regional e internacional”, afirmaram os ministros das Relações Exteriores de dez países pertencentes à Liga Árabe após a reunião de emergência realizada na quarta-feira (05/08) em Amã, na Jordânia. O comunicado também foi assinado por ministros da Indonésia, do Paquistão, da Turquia e da Malásia.

O ministro das Relações Exteriores da Jordânia convocou a reunião devido ao que classificou como evidências crescentes de que o governo israelense está alterando sorrateiramente um acordo que remonta há décadas destinado a garantir a paz entre as comunidades no complexo da Mesquita de Al-Aqsa, uma área de grande significado religioso tanto para muçulmanos, quanto judeus e cristãos.

“Alertamos que interferir no status quo poderia desencadear um conflito religioso que se espalharia além dos territórios palestinos e da Jordânia, atingindo todo o mundo muçulmano”, disse o ministro das Relações Exteriores da Jordânia, Ayman Safadi, ao jornal britânico The Guardian antes da reunião.

O Ministério das Relações Exteriores de Israel refutou as acusações, afirmando que Jerusalém “nunca esteve tão aberta e acessível aos fiéis de todas as religiões”.

Judeus em Al-Aqsa
Em julho, milhares de judeus oraram no complexo de Al-Aqsa, em violação ao acordo de status quoFoto: Debbie Hill/UPI Photo/Newscom/picture alliance

Por que Al-Aqsa é uma questão tão importante?

Al-Aqsa é considerada o terceiro local mais sagrado do Islã, depois de Meca e Medina, na Arábia Saudita. O complexo, também conhecido como Monte do Templo, é também o local mais sagrado do judaísmo — acredita-se que o Templo de Salomão e o Segundo Templo judaicos tenham existido ali. A área também é significativa para os cristãos por suas conexões bíblicas com a vida de Jesus Cristo.

Al-Aqsa também tem grande peso político, pois a mesquita é vista por muitos como a personificação da identidade palestina, um ponto crucial em uma cidade que pode vir a ser capital de um eventual Estado palestino.

Devido à importância do local, quando Israel ocupou Jerusalém Oriental pela primeira vez em 1967, considerou-se, no interesse da segurança nacional israelense, continuar permitindo que os muçulmanos realizassem seus cultos ali. Os judeus podiam apenas visitar o local, mas não tinham permissão para rezar ali. Em vez disso, os visitantes judeus realizam rituais religiosos no muro abaixo da mesquita, conhecido como Muro das Lamentações ou Muro Ocidental, único vestígio do segundo Templo Judeu, destruído pelos romanos.

A Jordânia também foi autorizada a continuar sua custódia centenária do local, e hoje a mesquita de Al-Aqsa é administrada por um fundo religioso chamado Waqf Islâmico, financiado pela Jordânia com cerca de US$ 20 milhões anualmente. Já as autoridades israelenses são responsáveis pela segurança no local.

Esse equilíbrio delicado é conhecido como “status quo” um latinismo que significa “no estado das coisas”. No entanto, relatos recentes indicam que a situação vem mudando.

Moradores de Jerusalém afirmam que dezenas de funcionários da mesquita, contratados pela Jordânia, foram impedidos de entrar em Al-Aqsa este ano.

O número de fiéis muçulmanos também caiu pela metade em 2025, segundo observadores sediados em Jerusalém. Mais fiéis judeus estão sendo autorizados a entrar e realizam rituais de forma cada vez mais ostensiva — algo proibido durante décadas, inclusive por autoridades religiosas judaicas. O jornal Times of Israel noticiou, em janeiro, que a polícia permitiu abertamente, pela primeira vez, que visitantes judeus levassem folhetos de oração impressos para o local.

Em junho, também houve relatos de um plano conjunto de Israel e dos EUA para transformar a área da mesquita em um “centro multirreligioso”, embora o secretário de Estado americano, Marco Rubio, tenha negado posteriormente qualquer conhecimento sobre tal plano.Muçulmanos em Al-Aqsa

Na crença islâmica, o Profeta Maomé ascendeu aos céus a partir de Al-Aqsa.Foto: Mahmoud Illean/AP Photo/picture alliance

Crise gestada há décadas

Esta não é a primeira vez que governos de países de maioria muçulmana e ativistas em Jerusalém emitem alertas sobre a situação da área.

Há décadas, alguns grupos judaicos radicais — frequentemente referidos como o Movimento do Monte do Templo — exigem permissão para rezar no local. Os mais extremistas desses grupos defendem demolir a mesquita e construir um novo templo judaico.

Inicialmente, esses grupos eram em grande parte ignorados, aponta em 2025 o advogado Daniel Seidemann, fundador da Terrestrial Jerusalem, uma organização que monitora tais desdobramentos na cidade. No entanto, segundo ele, essa “ala radical minoritária” ganhou mais espaço. “Com o tempo, os movimentos do Monte do Templo, apoiados por mais de 100 rabinos ligados ao movimento de colonos na Cisjordânia, tornaram-se mais visíveis, mais vocais e mais provocadores”, diz Seidemann.

“Essa crise vem sendo gestada há décadas”, afirma, por sua vez, Omar Rahman, pesquisador do instituto de pesquisa política Middle East Council on Global Affairs. “Há um esforço de extremistas religiosos para destruir a Mesquita de Al-Aqsa pelo menos desde a década de 1980, quando planos para isso foram descobertos. Mas esses grupos e ideologias ganharam mais representação no Knesset [parlamento israelense] atualmente.”

Um relatório de outubro de 2025 da associação Ir Amim, que se concentra em questões israelenses e palestinas em Jerusalém, constatou que políticos — inclusive integrantes do Likud, o partido conservador nacionalista do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu — violam frequentemente as regras relativas ao status quo de Al-Aqsa, mas jamais enfrentam consequências por parte das autoridades.

“Na prática, Netanyahu permite e normaliza violações graves do status quo”, relatou a associação. No entanto, Netanyahu “continua a declarar que seu governo permanece comprometido com o status quo e que nada mudou”.

Em julho deste ano, 4.200 colonos israelenses e membros de grupos de extrema-direita israelense invadiram o complexo da Mesquita de Al-Aqsa, em uma das maiores incursões deste ano, por ocasião de um feriado judaico; O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir estava entre as pessoas que participou do ato.Al-Aqsa

A Unesco declarou a Cidade Antiga de Jerusalém, incluindo o Monte do Templo, Patrimônio Mundial; portanto, quaisquer alterações poderiam ser interpretadas como uma violação do direito internacional, segundo observadoresFoto: Simon Beni/Middle East Images/picture alliance

O que pode acontecer se a erosão do status quo de Al-Aqsa continuar?

“Seria muito imprudente fazer qualquer tipo de previsão”, disse à DW Joost Hiltermann, consultor especial para o Oriente Médio e Norte da África do think tank Crisis Group.

Mas, segundo Hiltermann, é essencial considerar que, “embora o destino de Jerusalém como cidade possa ser uma preocupação primordial para os palestinos, o destino dos locais sagrados do Islã em Jerusalém é uma preocupação constante dos muçulmanos em todo o mundo. Não apenas para o mundo árabe, mas também para os países com as maiores populações muçulmanas: Indonésia, Paquistão e Bangladesh. Portanto, qualquer tentativa israelense de alterar o status quo enfrentaria uma reação global negativa”.

No passado, mudanças levaram à violência. Em 2000, o futuro primeiro-ministro Ariel Sharon — então líder da oposição de direita em Israel — visitou Al-Aqsa em tom de desafio. O episódio foi visto como uma provocação incendiária, e acabou alimentando a eclosão da violenta revolta palestina conhecida como Segunda Intifada. Em 2017, a instalação de câmeras e detectores de metais pelas autoridades israelenses no local provocou protestos que resultaram em mortes.

Uma consequência provável de novas violações do status quo seriam grandes protestos públicos em países de maioria muçulmana. “Embora os regimes árabes relutem em se envolver em qualquer tipo de confronto com Israel, suas populações ficarão indignadas”, avalia Hiltermann. “Os regimes terão de lidar com isso e tentarão fazê-lo direcionando críticas contundentes a Israel, sem, contudo, tomar qualquer medida prática — eles se tornaram muito hábeis nisso. O mesmo valerá para a Indonésia e outros países. Ainda assim, todos eles poderão ter dificuldade em controlar a revolta interna.”

Rahman, por sua vez, avalia que as consequências de novas violações por parte de Israel dependeriam de quão radicalmente a situação em Al-Aqsa se alterasse. “Isso desencadearia uma reação bastante significativa, mas é difícil prever a sua dimensão”, diz ele. “Poderia provocar uma guerra religiosa catastrófica, ou talvez apenas uma reação diplomática, ou então simplesmente aumentar o ressentimento acumulado contra Israel”, acrescenta.

Devido à grande importância de Al-Aqsa no Islã, também poderia ser difícil para alguns países resistirem a uma onda de sentimento anti-Israel, mesmo que quisessem fazê-lo, acrescenta ele. Por exemplo, países como o Marrocos e os Emirados Árabes Unidos, que normalizaram as relações com Israel, poderiam sentir-se pressionados a reverter essa decisão diplomática.

Dada a importância de Al-Aqsa para a identidade palestina, o grupo Hamas, sediado em Gaza, frequentemente afirma estar defendendo a mesquita. Grupos extremistas de orientação islâmica também têm utilizado a defesa de Al-Aqsa para recrutar membros.

Fonte: DW.

09 de agosto de 2026.

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